A Nova Normalidade

Foto da Estación de Sants, a estação de trem mais movimentada de Barcelona, em um sábado de sol em Junho de 2020. Foto minha.

Embora estejamos cada vez mais livres, sair de casa segue sendo uma operação de guerra. Talvez por isso a vontade de sair nem seja tanta assim. Mas duas semanas atrás resolvi que queria ir fazer as unhas. O salão já levava uma semana aberto, e decidi arriscar.

Uma vez confirmado o horário pelo WhatsApp, e são poucos porque só há duas manicures e intervalo mínimo de atendimento entre as clientes, você recebe um PDF enorme com instruções muito específicas sobre como será o procedimento e como você deve se comportar. O documento é longo e confuso, mas o aviso em letras enormes e vermelhas é claro: LEIA O PROCEDIMENTO ATÉ O FINAL PORQUE SE NÃO SEGUIR À RISCA NÃO SERÁS ATENDIDA. Como boa soldado-cidadã que sou, leio atentamente. E claro que tenho dúvidas, como por exemplo: por que tenho que ir de luvas se o propósito é justamente tirar as luvas para fazer a unha? Escreve de volta, pede explicação, debate com a manicure sobre a necessidade ou não, chega-se a um acordo.

Na hora marcada, você chega ao salão bem paramentada: máscaras, luvas, bolsa de tecido. A manicure te recebe na porta, e à distância te pede para limpar os sapatos no tapete desinfetante. Depois de medir a sua temperatura com um termômetro infravermelho, desinfeta as suas mãos com álcool-gel. Te indica o lugar para sentar e a caixa onde deve guardar a bolsa. Não pode celular na mão, não pode nem ler um livro enquanto estiver ali. Tudo guardadinho. Uma cortina de plástico me separa da manicure, permitindo apenas que as mãos passem por baixo. Na saída, pago por meio de aplicação no meu celular. Já na rua, a sensação de que acabei de superar uma cirurgia.

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Fomos já umas três vezes tomar uma cerveja no terraço de algum bar. Neste caso, fica a dúvida sobre como lidar com a máscara. Tirar e recolocar constantemente enquanto comemos ou bebemos não só é inviável, como é anti-higiênico: a máscara inevitavelmente se suja de comida ou bebida. Abaixar para o queixo também não serve. Tiro a máscara. Mas o que faço com ela? Coloco na bolsa? Vai contaminar se estiver na bolsa? Fico com ela na mão o tempo todo? Dúvidas bestas, mas com as quais teremos que lidar daqui para a frente.

A fantasia de que iremos utilizar aquelas máscaras de algodão bonitinhas e customizadas também aos poucos se esvai…cada vez menos gente com elas na rua. Primeiro porque a necessidade de lavagem constante é um transtorno. E segundo porque elas não protegem de verdade, a recomendação é de que sejam de tecido sintético mesmo, como as brancas e azuis mais comuns.

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Estou surpresa com o comedimento da população. Com a abertura mais livre dos comércios, bares e restaurantes, achei que ia ver tudo cheio e lotado o tempo todo. Mas não está sendo assim. O metrô segue vazio mesmo nas horas de pico. As lojas também, com os seus procedimentos de entrada e saída bem explicados e expostos na porta, marcações no solo, exigência de luvas e de limpeza das mãos, contagem de pessoas. Todos seguimos as instruções, mantemos distância mínima, nos olhamos com uma desconfiança triste.

Eu me surpreendi, mas não deveria ter me surpreendido. Morreu gente demais na Espanha. Proporcionalmente à população, é uma das taxas mais altas do mundo. Nós estamos com medo. Eu estou com medo.

Ninguém sairá puro desta pandemia. Aos poucos voltamos ao mundo lá fora, com novas cicatrizes expostas, mas dentro dos nossos escafandros. Não estamos paralisados, mas a vida mudou. O mundo mudou. Nós mudamos.

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