Outras Pessoas

Las Ramblas (foto minha)

Finalizada a quarentena, no primeiro dia em que fomos até a Barceloneta passeando, conhecemos um rapaz Argentino. Paco estava sozinho na areia da praia, tocando violão. Nos sentamos perto dele e o Carlos, qual um menino se aproximando de outro que tem um brinquedo mais legal, foi de mansinho fazendo amizade.

Paco tem vinte e poucos anos. Havia chegado em Barcelona uma semana antes que fosse decretada a quarentena em toda a Espanha. A ideia era viver de tocar na rua, no metrô, como fazem muitos e muitos músicos em Barcelona. Vivem das moedas que os turistas deixam nos seus chapéus. O próprio Carlos já viveu assim, anos atrás.

Paco, claro, precarizado estava quando chegou, mais precarizado está agora. Anteontem fomos até a parte mais turística de Barcelona: fizemos a rota Plaza Catalunya – Las Ramblas – Mercado de la Boquería – Plaza Real – Catedral – El Borne. Já praticamente em julho, o lugar deveria estar fervendo de gente mais do que do calor sufocante que já faz. Mas não havia ninguém. A cidade está assustadoramente vazia. Aí estão as fotos que não me deixam mentir.

Plaza Real (foto minha)

Mas Paco está feliz. Virou aluno de guitarra do Carlos, hoje fez sua segunda aula aqui em casa. Nos contou que esta semana um amigo teve a guitarra apreendida pela polícia por tocar no horário errado. Ele próprio anda buscando lugares menos visados, fugindo da vigilância policial. Agora toca cerca de seis horas por dia no “Rincón de la Calma”, em Sitges. Ali a polícia não vai.

A próxima aula do Paco depende de se ele terá dinheiro para pagar. Paco não está preocupado. Nós também não. Esperaremos por ele.

Há outras maneiras de se viver.

Calle Ferran (foto minha)

Durante a quarentena, quando os bares e restaurantes ainda estavam fechados, encontramos com o dono do nosso bar preferido aqui do bairro. Entusiasmado com a reforma que aproveitou para fazer no bar, nos mostrou como estava ficando bonito, como ele criou mais espaço e rearranjou tudo para se adequar às normas das distâncias mínimas entre os clientes.

Depois nos contou que – tinha até vergonha de dizer – passadas as primeiras duas semanas da quarentena, quando ele viu que a ajuda do governo ia servir para segurar as pontas até poder abrir de novo, ele relaxou. Ele não tem empregados no bar, trabalham ele e a esposa, de domingo a domingo. Então, agora estava aproveitando a quarentena, tinha tempo para estar em casa com as duas filhas pequenas, tranquilo no sofá com a esposa, cozinhando, dormindo. Estava quase triste com a perspectiva da abertura. E deu uma risada alta e gostosa.

É claro que ele sente muito por tanto sofrimento e tanta morte, e que também tem medo do vírus, mas ao mesmo tempo aproveitou tudo que pôde do tempo que teve com a família, fez a reforma que queria no bar, e estava pronto pra recomeçar.

Plaza de la Catedral (foto minha)

A garçonete no Borne está trabalhando entre doze e treze horas por dia. O restaurante é enorme, mas na segunda-feira eu e o Carlos éramos os únicos clientes. Antes da pandemia, tinham uma equipe de dez garçons e cinco cozinheiros. Agora são cinco garçons e três cozinheiros. Sendo que nem todos os garçons estão trabalhando horário completo. Ela, ao contrário, está trabalhando demais.

Disse que há uns dois anos se mudou para um bairro fora de Barcelona, comprou uma casinha com a esposa, e pagam menos de hipoteca do que pagariam de aluguel dentro da cidade. Trabalha há três anos neste restaurante, e assim paga as contas. Está bastante preocupada porque sem os turistas ela não sabe como o restaurante vai se sustentar e, portanto, se ela vai ter emprego. “Olhem”, ela nos diz enquanto nos indica com os braços a rua vazia: “Não tem ninguém. Está assim a semana toda. Nem no sábado tem movimento suficiente. Sem os guiris não sei como vai ser”.

Nós também ficamos assustados. Muitos hotéis estão fechados. Ver hotéis fechados, com as portas trancadas, as luzes apagadas, as cadeiras e mesas empilhadas, lembra cenas de filmes de terror mesmo debaixo do sol escaldante de julho.

Teremos que encontrar novas maneiras de viver.

Talvez Paco tenha algo a nos ensinar.

Hotel 5 estrelas fechado na Via Laietana (foto minha)

Dry Martini

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Às vezes eu perco as palavras. O problema de perder as palavras é que sem elas eu não consigo pensar. Para ter ideias, preciso colocá-las em palavras bastante específicas, descritivas, diversas. Sem ideias, não consigo pensar de forma clara, e sem o pensamento claro não há escrita, pelo menos para mim.

Não é um delírio do tipo “olha ela toda escritorazinha ela”. É algo que me acontece de tempos em tempos, mesmo quando trabalhava como advogada, mesmo quando escrevia teses de mestrado, artigos. Não se trata necessariamente de beleza ou criatividade: é um problema mais básico. São as ideias mesmo, é o próprio pensamento que ou não aparece ou não faz sentido na ausência da palavra certa.

Uma vez, há muito tempo, eu li um artigo em algum lugar que explicava que o ser humano precisa ter um vocabulário mínimo de, digamos, cinquenta mil palavras (não sei, não me lembro mais), para poder ter pensamentos originais, compreender textos e explicações, para poder contextualizar. Enfim, para ter uma vida minimamente integrada e consciente. A ausência das palavras, então, seria a própria ausência de pensamento.

Nos últimos dias me sinto assim, vazia de palavras.

Minha mestra me disse que elas vão voltar porque as palavras, diferentemente do tempo, sempre voltam. Enquanto elas não voltam, eu fiz um Dry Martini e agora vou cozinhar feijão. 

Worcestershire

A receita leva molho inglês. Para quem consegue pronunciar, seja por desvio genético ou treinamento em nível olímpico, chama-se molho Worcestershire. Para mim, é molho inglês.

A minha garrafinha já tinha acabado há um mês, mais ou menos. Pandemia e tal, adiei a reposição deste item essencial da minha cozinha. Na minha opinião, patê de atum sem molho inglês é um erro. Estamos há um mês trabalhando sem patê de atum nesta casa, e a situação já toma contornos dramáticos.

Hoje fiz desta busca a minha missão. Por algum motivo, achar molho inglês no Brasil é coisa de ir à padaria da esquina. Até o Dia % tem molho inglês, de várias marcas e preços diferentes. Aqui, não. Parece ser uma iguaria, nem todo supermercado vende, e a única marca disponível é a tradicional inglesa, Lea & Perrins.

Busquei no mercado do bairro, nos supermercados de rede da vizinhança, e nada. Shoyo tem aos montes, até vinagre de arroz você acha. Worcestershire? Não. Não é nem que seja um produto caro, pelo contrário, custa um euro e pouco. Busco na internet, acho que na última vez encontrei no El Corte Inglés (não, não vou fazer a piada do molho inglês no Corte Inglés. Vou deixar passar). E lá está a fotinho dele no site, preço camarada. Me preparo para o grande evento da semana: A Ida Ao Corte Inglés.

O problema desta loja de departamentos (pense numa mistura de Mesbla com Daslu) é que ela cria um buraco negro na sua capacidade de concentração. Eu tinha um único propósito: uma garrafinha de molho inglês. Entro na loja e imediatamente esqueço porque fui até lá e me parece absolutamente prioritário comprar um chapéu, um lenço de seda bordado, um broche de veludo, sei lá. É como um parque de diversões para uma criança de cinco anos: você quer comer algodão-doce, subir na montanha russa, rodar na xícara maluca e tomar coca-cola, tudo ao mesmo tempo. Como não dá, você (ou a sua criança interna de cinco anos) começa a chorar. Pesquisei preços de taças de vinho, de jogo de louça de porcelana, de lençóis de algodão egípcio com um milhão de fios. Meia-hora foi gasta namorando os “táper” fodidos, de vidro e fechamento hermético. Panelas, panelas e mais panelas. Acho que fiquei uns quinze minutos com uma Le Creuset na mão. Posso ter chorado neste momento. Jamais saberemos.

Como num torpor etílico, consegui achar a escada rolante que te leva ao supermercado da loja, este submundo do tráfico de comidas finas em embalagens luxuosas. Respirei fundo: “não olha aquela geladeira, passa batido pela parte do salmão defumado, desvia dos azeites, foco no molho inglês”. Resisti bravamente a tudo isso, e no final eles não tinham o molho. Não tinham. Perguntei pra um assistente, ele me ajudou a procurar, e nada. Me mandou tentar achar na parte gourmet (eles conseguem ter uma parte gourmet que é ainda mais gourmet que a normal). Respirei fundo, segurei as lágrimas, entrei. Focada: molho, molho, molho. A sensação é a de que só de respirar lá dentro já se foram cinquenta euros. Molho, molho, molho. E… nada. Também não tinham. A moça, simpática que só e com dó de mim, ainda buscou no computador. Foi o famoso “tem, mas tá em falta”.

Paguei meus pimentões cozidos e meu pacote de feijão, e tomei o caminho da roça. Já na saída, vejo um balcão lindo, todo arrumadinho com coisas coloridas. Eram máscaras. Máscaras de algodão puro, estampadas, laváveis, ajustáveis, pela bagatela de vinte euros cada uma.

Agarrei meu feijão e saí correndo.  

Um passo à frente

“Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”. Dizem que esta frase é de Chico Science, mas não tenho certeza. De qualquer forma é uma das minhas frases favoritas, e volta e meia a encontro rabiscada em algum caderno, ou nas margens de algum livro, em algum post-it colado na parede ou na tela do computador. Gosto desta frase porque ela me traz de volta à realidade da vida, quando entro em uma espiral de autocomiseração e impotência. Basta um passo. Um só. Por menor que seja. Um centímetro adiante e já não estamos naquele centímetro ali de trás.

Hoje fui caminhar além do bairro. Exceto pela exploração exótica em Gràcia na semana passada, que incluiu até um assustado passeio no metrô, não havia ido mais longe do que 500 metros de casa. Mas hoje fui até a Plaza d’España. Com a avenida fechada ao tráfego, foi uma caminhada saudável, quase normal, não fosse a máscara que acentua o calor do sol no rosto e nos faz respirar com mais dificuldade, especialmente quando caminhamos com mais velocidade. Mas não importa. Fui até Montjuic, um dos meus lugares favoritos da cidade.

É também um dos lugares mais turísticos, com sua Fonte Mágica, com o imponente palácio que abriga o MNAC, com suas vistas estupendas da cidade. Está sempre cheio, cheio, cheio, cheio. Camelôs, hordas de turistas, e ainda por cima é onde ficam os grandes salões de eventos da cidade, a FIRA Barcelona. É um lugar aonde, em geral, temos que desviar das pessoas para poder caminhar. Ainda mais em um dia espetacular como hoje.

Mas olhem como estava. Sem uma alma viva. Deu um pouquinho de nervoso ver este lugar tão vazio. Mas confesso que foi só um pouquinho. Porque passada a estupefação inicial, confesso que achei bom demais! Una Barcelona vaciada. Qué belleza!

Museu Nacional d’Art de Catalunya. Foto minha.
Nenhuma alma viva (exceto a minha).
Mi Barcelona.

A Nova Normalidade

Foto da Estación de Sants, a estação de trem mais movimentada de Barcelona, em um sábado de sol em Junho de 2020. Foto minha.

Embora estejamos cada vez mais livres, sair de casa segue sendo uma operação de guerra. Talvez por isso a vontade de sair nem seja tanta assim. Mas duas semanas atrás resolvi que queria ir fazer as unhas. O salão já levava uma semana aberto, e decidi arriscar.

Uma vez confirmado o horário pelo WhatsApp, e são poucos porque só há duas manicures e intervalo mínimo de atendimento entre as clientes, você recebe um PDF enorme com instruções muito específicas sobre como será o procedimento e como você deve se comportar. O documento é longo e confuso, mas o aviso em letras enormes e vermelhas é claro: LEIA O PROCEDIMENTO ATÉ O FINAL PORQUE SE NÃO SEGUIR À RISCA NÃO SERÁS ATENDIDA. Como boa soldado-cidadã que sou, leio atentamente. E claro que tenho dúvidas, como por exemplo: por que tenho que ir de luvas se o propósito é justamente tirar as luvas para fazer a unha? Escreve de volta, pede explicação, debate com a manicure sobre a necessidade ou não, chega-se a um acordo.

Na hora marcada, você chega ao salão bem paramentada: máscaras, luvas, bolsa de tecido. A manicure te recebe na porta, e à distância te pede para limpar os sapatos no tapete desinfetante. Depois de medir a sua temperatura com um termômetro infravermelho, desinfeta as suas mãos com álcool-gel. Te indica o lugar para sentar e a caixa onde deve guardar a bolsa. Não pode celular na mão, não pode nem ler um livro enquanto estiver ali. Tudo guardadinho. Uma cortina de plástico me separa da manicure, permitindo apenas que as mãos passem por baixo. Na saída, pago por meio de aplicação no meu celular. Já na rua, a sensação de que acabei de superar uma cirurgia.

***

Fomos já umas três vezes tomar uma cerveja no terraço de algum bar. Neste caso, fica a dúvida sobre como lidar com a máscara. Tirar e recolocar constantemente enquanto comemos ou bebemos não só é inviável, como é anti-higiênico: a máscara inevitavelmente se suja de comida ou bebida. Abaixar para o queixo também não serve. Tiro a máscara. Mas o que faço com ela? Coloco na bolsa? Vai contaminar se estiver na bolsa? Fico com ela na mão o tempo todo? Dúvidas bestas, mas com as quais teremos que lidar daqui para a frente.

A fantasia de que iremos utilizar aquelas máscaras de algodão bonitinhas e customizadas também aos poucos se esvai…cada vez menos gente com elas na rua. Primeiro porque a necessidade de lavagem constante é um transtorno. E segundo porque elas não protegem de verdade, a recomendação é de que sejam de tecido sintético mesmo, como as brancas e azuis mais comuns.

***

Estou surpresa com o comedimento da população. Com a abertura mais livre dos comércios, bares e restaurantes, achei que ia ver tudo cheio e lotado o tempo todo. Mas não está sendo assim. O metrô segue vazio mesmo nas horas de pico. As lojas também, com os seus procedimentos de entrada e saída bem explicados e expostos na porta, marcações no solo, exigência de luvas e de limpeza das mãos, contagem de pessoas. Todos seguimos as instruções, mantemos distância mínima, nos olhamos com uma desconfiança triste.

Eu me surpreendi, mas não deveria ter me surpreendido. Morreu gente demais na Espanha. Proporcionalmente à população, é uma das taxas mais altas do mundo. Nós estamos com medo. Eu estou com medo.

Ninguém sairá puro desta pandemia. Aos poucos voltamos ao mundo lá fora, com novas cicatrizes expostas, mas dentro dos nossos escafandros. Não estamos paralisados, mas a vida mudou. O mundo mudou. Nós mudamos.

Notas da Desescalada II

Foto da Berliner Ensemble mostrando o teatro pós-pandemia

O mundo acabou.

Isso não é uma metáfora ou um exercício retórico.

O mundo acabou.

Sem explosões, sem enchentes, sem nem um vento mais forte. Sem fogo descendo sobre nossas cabeças, sem ruído, sem sustos. Não ouve revoada de pássaros nem latidos de cachorros. Não vieram os quatro cavaleiros, nem desceram dos céus anjos cantando.

Sem despedida, sem data marcada, sem calendário celta ou maia. Os padres não nos avisaram, as ciganas não viram, os monges não observaram, a mãe de santo não pressentiu, o astrólogo não predisse, o pastor não sabia.

Fizemos nossos planos para o ano e aí o mundo acabou.

Em silêncio, nos tornamos expectadores mórbidos da catástrofe que se abateu sobre nós, assustados, perdidos. Em estado de negação, fazemos planos outra vez para quando tudo isso passar, mas não passará. Porque o mundo acabou.

Agora vemos o que não queríamos ver, artífices que somos deste fim de mundo que chegou por nossas próprias mãos, por nossa própria insensatez e miséria. Não há mais tempo, não há mais desculpa. Debater-se é inútil. Como o médico em uma cena de cinema, dizemos a nós mesmos que vai ficar tudo bem enquanto sabemos que o mundo acabou.

Numa esquina de Barcelona, um pai vê de longe a filha. Cobertos com máscaras e luvas se aproximam com entusiasmo. A dois metros de distância param como num jogo de estátua. Ela grita você não pode me abraçar. Ele responde eu sei. Ele acaricia o cabelo dela, de longe. Ela recua e diz você não devia ter feito isso. Ele responde eu sei.

Eu sigo no meu caminho, segurando as lágrimas porque não se pode chorar de máscara.

O mundo acabou. Não façam planos.

O mundo acabou.

Notas da Desescalada

Último sábado da fase 0 da desescalada. Foto minha no Carrer de Sants, avenida ao lado de casa.

Há duas semanas vivemos em torno das fases do processo de desescalada do confinamento na Espanha. Da fase 0 até a fase 4 teremos um mês e meio, pelo menos, de pequenos passos em direção ao que já se chama por aqui de “nueva normalidad”. Em Barcelona, entramos na fase 1 amanhã, o que significa que mais comércios, bares e restaurantes poderão abrir, e a circulação pela cidade ficará um pouco mais livre, ainda que com medidas restritivas e sob forte controle.

O Carlos volta a trabalhar amanhã. Estamos felizes por este retorno, tão necessário. Mas não sabemos o que esperar.

Porque “normal” sabemos que não será. Pelo menos não tão cedo, talvez nunca mais. Não seremos nós as mesmas pessoas que éramos no dia 13 de março de 2020. Também dificilmente o serão as cidades, os hábitos, as conversas, os planos, as perspectivas.

Sairemos desta pandemia com ressaca e cicatrizes, algumas visíveis, outras disfarçadas, até mesmo invisíveis. Mas as marcas estarão lá, no aumento do número de bicicletas, na indisposição para viajar, no comedimento das multidões, nos novos espaços minimalistas. As cicatrizes estarão nas filas aumentadas de distribuição de comida, no ano escolar perdido, nas crianças pequenas que se acostumaram às máscaras mais facilmente que os adultos.

Veremos cicatrizes no nosso próprio olhar, que contará o número de pessoas nos lugares, tentando adivinhar se aquela peregrinação de gente passeando pelas ruas, agora interditadas aos carros para libertar os pedestres das calçadas, configura ou não uma aglomeração. Estarão presentes na timidez das mãos, que já não tocam quase nada quando estamos fora de casa. Estarão presentes também nas pequenas ausências cheias de significado, e ao mesmo tempo insignificantes. Porque vejam vocês: eu já não uso mais batom para sair de casa. Na verdade, quase não coloco maquiagem mais, porque é inútil (a máscara esconde) e é um equívoco (suja a máscara, e a torna inutilizável mais rápido). Quem me conhece bem sabe que para mim isso é um absurdo impensável. Eu gosto de maquiagem. Gosto mesmo, é lúdico, é colorido, é divertido de colocar, a gente usa pincéis e cremes e pós brilhantes, pequenas escovinhas, lápis de cor, e a gente fica mais bonita. Eu acho. Além do mais, aprendi desde pequena com a minha avó que nunca se deve sair de casa sem “os dois BÊS: brinco e batom”. Os dois, agora, estão quase proibidos. Porque brincos, só dá para usar os pequeninos, colados na orelha.

Passamos a ler obsessivamente as instruções sobre cada nova fase: como poderemos provar as roupas nas lojas?, quantas pessoas podem entrar na sala de cinema?, a que horas posso ir ao centro passear?, que tipo de transporte posso utilizar e como? São as perguntas que hoje nos fazemos, e logo entramos em longas discussões sobre qual a melhor maneira para fazer cada coisa, sobre soluções encontradas em lugares distantes e alheios, em Bangkok ou em uma pequena cidade da Lituânia.

Passada a fase da mera sobrevivência, demos de cara com um mundo que não existia (e que de certo modo ainda não existe), e fazemos o único que nos resta. Ainda um pouco confinados, mas já um pouco livres, nos perguntamos como voltaremos a caminhar. E em direção a quê.

***

Na falta do lúdico da minha maquiagem, ontem à tarde me sentei na nossa varandinha, copo de vinho branco em punho, e me pus a desenhar. Sabidamente, eu não sou capaz de desenhar nem um gato. Depois que eu tinha feito o meu pequeno zoológico de bichos “pós-modernistas”, o Carlos fez o favor de mostrar que artista é artista e pode fazer de tudo – insira aqui mentalmente o emoji rolando os olhinhos. Os deixo com as obras de arte criadas, painel da minha humilhação pública diante do talento blasé (e um pouco mórbido, há que se dizer) do Carlos.

O angry bird e o urso xingando são obras do Carlos. O resto é o meu talento inegável mesmo. 🙄
Acho que não há dúvidas sobre quem fez o carangueijo robô e o coronavírus.
Os da esquerda são meus. Os da direita, do Carlos.

Notas da Quarentena (Musical) VIII

Já estamos em uma fase pouco a pouco mais relaxada da quarentena. Ainda que Barcelona esteja no último lugar na corrida pela liberdade na Espanha, já podemos fazer pequenos passeios, já podemos ir fazer as compras juntos, e logo-logo poderemos até ir à praia!

A verdade é que isso me anima, mas também me atordoa. Tenho passado as últimas semanas em um estado de confusão total, às vezes feliz, às vezes muito triste, quase sempre com medo. Aos poucos a vida vai se abrindo, mas para quê? Como será a nova vida? Teremos empregos, manteremos a saúde, veremos nossos amigos e parentes, viajaremos? Sobreviveremos?

Eu não creio que terei coragem de ir a concertos lotados do jeito que eu gosto, festivais de música, sozinha, o dia inteiro zanzando entre palcos, sentada no chão com um sanduíche gorduroso e uma cerveja num copo imenso de plástico, olhando as pessoas diferentes e ouvindo umas bandas das quais nunca nem ouvi falar. Logo eu, que me meto nos lugares mais improváveis porque, vai que?

Acho que vocês já sabem que o Carlos é guitarrista de jazz. E a música é absolutamente presente nesta casa, do nascer ao pôr-do-sol. Há sempre, sempre, sempre, algum jazz/bebop/soul/funk/world music tocando por aqui, mesmo que seja uma eterna escala solitária na guitarra… (quero morrer de tédio, obrigada).

Mas nos últimos dias, pela minha angústia, pelo meu medo, pela minha ansiedade, pela minha incerteza e insegurança, coloquei todas estas coisas lindas-porém-demasiado-alternativas no quartinho da quarentena, e resolvi dominar com as minhas playlists. E eu tenho uma playlist favorita, construída nos últimos 4 anos, com muita paciência, carinho e amor. São músicas várias, do pop ao indie ao folk, até tem algum jazz, e um ou outro instrumental. Mas quase todas tem em comum alguma letra que me emociona. Em geral, são as letras que me movem, às vezes mais que a melodia em si.

Então resolvi propor este jogo musical. Porque percebi que na minha playlist tem um monte de músicas cujas letras, aqui e ali, se aplicam como uma luva à minha condição pessoal, e à nossa condição coletiva: medo, solidão, angústia, incerteza, liberdade, esperança.

Abaixo listei alguns versos favoritos, aleatoriamente. Talvez vocês reconheçam. Se reconhecerem, seria legal se comentassem a música ou o autor. Porque se você reconhece este verso, é porque esta letra te marcou, esta música te identifica, e por isso, meu irmão, minha irmã, nós estamos juntos, mãos dadas, em direção a um futuro inteiramente desconhecido, mas que enfrentaremos juntos e cantando os refrãos em coro.

Porque esta pandemia, esta recessão, este medo, pode até vir a nos matar….

But not today. Not today. It’s gonna get easier, easier, somehow.

I’m just sitting here watching the wheels go round-and-round, I really love to watch them roll. No longer riding on the merry-go-round. I just had to let it go.

I never held emotion in the palm of my hand, or felt sweet breezes on the top of a tree.

And you know the worst part of a good day is hearing yourself say goodbye to one more possibility day.

Welcome to your life. There’s no turning back. Even while we sleep, we will find you acting on your best behavior, turn your back on mother nature.

It’s time to make a start. To get to know your heart.

We won’t be leaving by the same road that we came by.

It would be so fine to see your face at my door. And it doesn’t help to know you’re just time away.

So they came, one by one, there was never any warning.

Oh I’m left holding my head looking down at every grave. And all millennia pass, just a flicker in a wave. And I’ve seen more villages burn than animals born. I’ve seen more towers come down than children grow up.

…And it makes me wonder….

And as we wind on down the road, our shadows taller than our soul. There walks a lady we all know, who shines white light and wants to show how everything still turns to gold. And if you listen very hard, the tune will come to you at last. When all are one and one is all. To be a rock and not to roll.

I’m so tired of playing. Playing with this bow and arrow.

Come here, she said, I’ll give you shelter from the storm.

Ch-ch-changes. There’s gonna have to be a different man. Time may change me, but I can’t trace time.

Can I sail through the changing ocean tides? Can I handle the seasons of my life?

Hey babe. Take a walk on the wild side.

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não…

Freedom is mine, and I know how I feel. It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life.

Notas da Quarentena VII

Meu cabelo cresceu. Em CNTP diríamos que ele perdeu o corte, e as raízes vão pouco a pouco mostrando a origem e a idade. Mas não estamos em CNTP e o que me incomodou nas primeiras semanas, agora nem reparo mais. Já me intriga, inclusive, porque eu achava que as raízes apareciam com o tempo, nas agora nem as vejo mais.

Ainda assim, anteontem fui à farmácia e fiquei uns dez minutos inspecionando a prateleira gigante de tintas e colorações para cabelo. Li rótulos com letras pequenas, li instruções confusas em embalagens com fotos de cabelos lindos e saudáveis em rostos lindos e saudáveis. Me decidi por comprar nenhum deles. Foda-se. Nem acho que a raiz está tão ruim, e no fim descobri que o legal da minha vaidade é ir no cabelereiro e conversar com as pessoas, ter alguém mexendo na minha cabeça com delicadeza e cuidado, discutir minuciosamente se quero mechas louro-dourado ou um reflexo louro-prateado, ainda que nada disso faça nenhum sentido ou diferença. Sozinha em casa, na luz fraca do banheiro, no espelho embaçado, não acho que precise de retoques. A realidade é mais prazerosa, neste momento.

Quando tudo isso passar, espero poder ir alguns dias para um spa com alguma amiga e discutir longamente sobre a diferença entre uma massagem sueca e uma drenagem linfática, entre mechas e reflexos, entre um corte de cabelo bob ou pixie. Tudo me parece tão fútil, tudo me parece também tão necessário. Eu vivo uma pandemia de contradições.

“Hay que vivir, porque morrir siempre se puede”, me disse o meu marido, sempre mais sábio que eu, na manhã de uma segunda-feira difícil. Roubaremos esta frase e nem diremos que é do Carlos, porque não temos dignidade.

Pouco a pouco a Espanha começa a abrir. Em Barcelona nem abrimos tanto assim, mas agora podemos sair para passeios sem motivo, não preciso ir comprar comida ou remédio, posso apenas sair para andar e olhar as ruas e as pessoas. Além disso, não preciso mais ir sozinha, posso ir com o Carlos.

Então, no primeiro dia da ‘desescalada’, exatamente às 20:00, estávamos os dois de banho tomado, roupa limpa, sapatos e meias, máscaras no rosto, álcool gel na bolsa, saindo de casa. Eu não vivi uma guerra, eu não sei como é um Liberation Day, mas imagino que seja como o que vivemos na semana passada. As pessoas riam e falavam da pandemia, riam e discutiam o confinamento, riam e olhavam ao redor, riam e tiravam fotos, riam e não sabiam por que riam.

Na outra vez que saímos, éramos velhinhos caminhando devagar, de braços dados, buscando as ruas mais vazias, o parque mais tranquilo, sorrindo bestamente embaixo das máscaras enquanto observávamos as outras pessoas. O Carlos sugere que nos sentemos no banco da praça, embaixo da árvore que já dá flores e já espalha um perfume que podemos sentir mesmo com máscaras. Eu acho bem tosco ficar sentado no banco da praça, porque já ficamos tanto tempo sentados em casa! Ele pacientemente me esclarece que sentados na praça podemos ver outras pessoas, ao passo que em casa, apenas vemos a nós mesmos. Meu marido sempre mais sábio que eu. Nesta pequena praça de bairro, em meros 30 minutos, havia mais vida que em um ano inteiro.

As notícias feias que vem do Brasil chegam sempre de manhã para mim. É um dos males do fuso horário: já acordamos com as más notícias. Depois disso, é passar o dia racionalizando o irracional. E foi num dia particularmente ruim, na partida de Aldir Blanc, que o Carlos me disse, num abraço matutino enquanto eu chorava, a frase que para mim definirá para sempre essa quarentena.

“Hay que vivir, porque morrir siempre se puede.”

Em caso de pandemia, case com alguém mais sábio que você.

Notas da Quarentena VI

Tem feito dias magníficos em Barcelona. Um céu azul turquesa cristalino, sem nenhuma nuvem, um sol quentinho e uma brisa fresca, não faz calor e também não faz frio. Acho um insulto. Estes dias maravilhosos e nós, confinados.

Mas temos a nossa varandinha de 1x2m. Já é alguma coisa. Nos sentamos aqui em silêncio, algum drink na mão (sempre há um drink na mão…) e observamos os pássaros. Hoje me dei conta da analogia óbvia. Somos como os animais dos zoológicos.

Estamos agora confinados a uma pequena cela: janelas, grades ou vidros nos separam do mundo natural, mas nos permitem vê-lo a uma distância segura. Se você tem a sorte de ser um leão num zoológico rico, talvez tua cela tenha um grande jardim, árvores, pedras, algum espaço para correr, um pequeno rio. Mas talvez você, prezado leitor, não passe de uma pequena tartaruga, um jabuti, e não receba mais que um pequeno aquário de vidro, luzes artificiais, e uma mão humana que de vez em quando te alimenta.

Seja qual for o teu caso, o resultado final é que você está protegido: armas de fogo não te alcançarão. Facas e correntes se arrebentarão, antes de tocar o teu corpo. Vírus terão menos chance de te contagiar. Bactérias serão mortas pelos cuidadores especializados, com seus remédios eficientes, e suas luvas e máscaras, e água fervida, e frutas lavadas.

E esta é a negociação que nos definirá para sempre.

Seríamos mortos por nossos predadores naturais, sofreríamos acidentes inusitados que nos inutilizariam, os muitos vírus existentes causariam nossa extinção. Exceto pelos engenhos humanos maravilhosos, exceto pela ciência pura, exceto pelos experimentos laboratoriais, às vezes cruéis.

Se não fossem nossas construções cinzas de gaiolas humanas que nos isolem perfeitamente dos nossos predadores, mas também dos nossos vizinhos. Se não fosse pela ciência que evoluiu com, e apesar dos, humanos. Se não fosse por nossa resiliência aflitiva, neurótica, obsessiva. Se não fosse nosso contraditório ódio e amor pela humanidade, o nosso medo da morte. Se não fosse a nossa eterna inconsistência, incongruência, irracionalidade, não sobreviveríamos a esta pandemia. Estaríamos aí nas ruas, como os pássaros que agora voam e ocupam os espaços vazios de nós. Estaríamos livres, mas doentes. Livres, mas em risco de extinção.  Livres, mas frágeis.

E não seria este o grande dilema da Vida? Preferimos a segurança da prisão ou a liberdade da impermanência? Preferimos a deixar nossa marca para o futuro, ou bailar na insignificância da inexistência?

Por mais de 20 anos negociei contratos profissionalmente. Queria, agora, negociar este último contrato, este meio termo, esta aceitação coletiva do perde-perde. Queria negociar alguma segurança, e alguma liberdade; algum sol, e alguma sombra; algum frio, e algum quente.

Eu queria poder sair sem ter que trancar os outros.