Quando foi que você fez algo pela última vez?

Tão preocupados estamos em fazer alguma coisa pela primeira vez, como insistem os inomináveis coaches, que às vezes não nos lembramos do que perdemos. De que algo ficou pelo caminho enquanto seguimos em frente acumulando novidades.

A última vez em que brinquei de balanço num parque, que fiz uma prova de matemática ou esperei os colegas na saída da escola para conferir o gabarito. A última aula de geografia, a última vez que cruzei a ponte Rio-Niterói de carona com amigos da faculdade, a última vez que fui ao bar da esquina da casa dos meus pais ouvir chorinho. Tudo isso me escapa, embolado num nevoeiro difuso de memórias. Posso lembrar de balanços, aulas de geografia ou provas de matemática, das muitas caronas, das noites no bar. Mas não daquela última.

Assim seria para o grupo de cinco amigos sentados ao redor de uma mesa na taverna grega de Chania em julho de 2025. Cinco amigos por volta dos 20 anos. Três moças, dois rapazes. Relaxados, dividiam pratos de comida, bebiam cerveja, conversavam tranquilamente. Como se aquele momento fosse eterno, como se a atenção pudesse ser dispensada porque estariam ali para sempre naquela taberna, tomando cerveja, ouvindo música, conversando. Sem nenhuma angústia de querer encapsular o momento, em preservá-lo como uma das muitas cenas gregas gravadas em pedras e exibidas na Acrópole.

Ana, 22 anos. A mais velha do grupo, com uma superioridade relaxada, como quem sabe do seu lugar no mundo, como quem tem um plano. De fato, Ana tem um plano. Em dois anos terminará a graduação em Engenharia e planeja ir embora da Grécia. Londres, ela imagina. De preferência para trabalhar em alguma firma de engenharia ou arquitetura por lá. Mas pode ser qualquer outra coisa, qualquer outro trabalho. O importante é ir embora de Atenas, colocar o máximo de distância possível entre ela e o calor úmido deste sol grego inclemente. Ana tem cabelos e olhos negros, um rosto fino, alongado e enrola cigarro atrás de cigarro com calma e precisão.

 Maria, 20 anos. Para este verão, resolveu trançar os cabelos longos e castanhos, formando finas linhas coladas na cabeça da testa até a nuca. Estuda Belas Artes e é, de longe, a mais sonhadora, a mais inocente do grupo. De riso fácil, é a primeira a cantar as músicas tradicionais gregas entoadas pelos músicos da taverna. Maria não tem um plano como Ana, talvez porque tenha confiança inabalável na vida, nas muitas possibilidades que certamente surgirão, bastando que ela mantenha os olhos e a mente abertos. Como quase todos os artistas, Maria acredita em coincidências e acasos, se apaixona facilmente, perdoa ainda mais. Neste julho de 2025, Maria tem certeza de que tudo vai dar certo. Vai se apaixonar, vai trabalhar em alguma galeria, talvez até tenha a sua própria.

Nikos, 20 anos. Sabia que era gay desde o princípio da adolescência, mas foi só mesmo quando entrou na faculdade (Nikos estuda com Maria) que se sentiu mais à vontade consigo mesmo e com o mundo. Ainda vacila um pouco quando está em um ambiente com muita gente desconhecida, mas entre amigos – especialmente estes amigos – se sente confortável, feliz. Pode ser ele mesmo, com suas camisetas tie-dye, seus jeans rasgados, seus chinelos de couro, o cabelo meio desgrenhado e precisando desesperadamente de um corte. Não tem ideia do que quer da vida, ou do que fará quando se formar, exceto de que em hipótese alguma trabalhará em um banco como seu pai.

Andreas, 21 anos e Lara, 20. Formam o único casal do grupo. É claro que todos sabem que Maria sempre foi meio apaixonada por Nikos e, de certa forma, eles também formam um casal, ainda mais estudando na mesma faculdade. Mas é tudo, obviamente, platônico. Já Andreas e Lara não tem nada de platônico. Estão oficialmente juntos há um ano e meio, mas já ensaiavam esse relacionamento desde os 15 anos, quando estudavam todos juntos, os cinco no mesmo liceu. Andreas cursa Administração; Lara, Direito. Andreas sendo o mais ambicioso e Lara tendo um temperamento modesto, reservado, se levam mais a sério que os outros três. Têm uma vida minimamente planejada pela frente: Andreas vai trabalhar no negócio do pai (uma pequena rede de hotéis 3 estrelas, que ele sonha em elevar para 5) e Lara vai trabalhar em algum escritório de advocacia. Vão se casar e, assim que puderem comprar a primeira casa, terão três filhos.

Gostaria de contar aqui que naquele dia, naquele julho escaldante que acumulava uma onda de calor extremo atrás da outra, naquela taverna de turistas com comida boa, cerveja gelada e música tradicional, nada disso importava. Que aqueles cinco amigos estavam ali inteiramente presentes, apenas desfrutando daquele momento especial entre eles. Mas não é verdade, como quase nunca isso é verdade. Enquanto bebiam cerveja e cantavam sorrindo, cada um pensava somente no futuro. No que iriam fazer quando o verão acabasse, a faculdade acabasse, o futuro chegasse. Enquanto Ana enrolava e distribuía cigarros, enquanto Nikos enchia os copos de cerveja, enquanto Maria cantava baixinho, o silêncio ia pouco a pouco preenchendo a mesa, os olhares iam ficando distantes, os sorrisos mais raros. Eles já não estavam ali, estavam em seus próprios sonhos.

Foi por isso que nenhum deles se deu conta de que aquela seria a última viagem que fariam juntos, que aquele almoço seria o último dos cinco. Já tinham vindo para Creta muitas vezes, em muitos verões. Desde os tempos do liceu, Ana os convidava para passar alguns dias, às vezes semanas, na casa de sua avó. Houve um ano em que vieram até no inverno. Era uma viagem barata e segura para adolescentes de poucos recursos, que aqui podiam desfrutar de uma liberdade que já não encontravam em Atenas. Virou um hábito, uma tradição. Por isso mesmo era difícil para eles imaginar que um dia isso terminaria. Que um dia seria a última vez que sentariam juntos naquela taverna.

Mas a verdade é que aquela seria, de fato, a última vez.

No verão seguinte, todos estariam focados nos estudos, no trabalho, nos seus novos relacionamentos. Não conseguiriam encontrar uma data que servisse para todos e, francamente, também já não estavam com tanta vontade assim de voltar à Creta. Queriam que a vida seguisse – fazer algo novo pela primeira vez. Poderiam voltar depois, sempre poderiam voltar depois. Aos poucos, os encontros em Atenas também foram ficando cada vez mais raros.

A vida, finalmente, seguiu. Eles nunca mais voltariam.

Maria nunca superou seu amor platônico por Nikos, ainda que tenha se apaixonado várias vezes. Também nunca chegou a trabalhar numa galeria de arte, ou ter a sua própria. Uma de suas muitas paixões, um homem bem mais velho acostumado a fazer grandes promessas, a apresentou a algumas drogas mais pesadas que nunca mais a abandonaram. Morreu dias antes de completar 30 anos, em um acidente de carro numas das estradas sinuosas da Creta que ela tanto amava, onde tinha vindo tentar se desintoxicar por uma última vez.

Nikos tentou tudo que pôde para seguir trabalhando com arte. Tentou até as galerias para turistas em Plaka. Mas o mundo mudou rápido demais e, com a morte de Maria, não reconhecia mais a arte que amava em parte alguma e seguiu de depressão em depressão, em uma vida cada vez mais instável, cada vez mais distante do jovem alegre e tímido dos verões adolescentes. Hoje é gerente de um bar chique para turistas, mas vive uma vida reservada com a mãe viúva.

Andreas e Lara se casaram e compraram um apartamento, tudo como previsto. Mas Andreas se tornou mais e mais controlador conforme os anos passavam, o que piorou muito com a chegada do primeiro bebê, quando já não escondia as muitas amantes que colecionava. Lara teve que deixar de trabalhar e foi desaparecendo aos poucos, até finalmente fugir com o filho de 3 anos para um abrigo de mulheres vítimas de violência doméstica. Mudou de nome e cidade e nunca mais se soube dela.

Ana se mudou para Londres para encontrar uma vida muito menos glamourosa do que imaginava. Trabalhou em bares e restaurantes até finalmente conseguir um emprego numa empresa de engenharia, onde trabalha horas demais para um salário que mal cobre o aluguel de uma kitchenette no East End. Completa a renda com o aluguel da casa de Chania que herdou da avó e que, hoje, é um Airbnb.

 A taverna grega daquele último encontro, daquela última viagem, ainda existe. Os ecos das risadas leves dos cinco, da música cantada baixo, dos cigarros enrolados e fumados, ainda ressoam pelas paredes. Como tudo na Grécia, são as paredes e as pedras que ainda se lembram. São as pedras que sabem que sempre haverá a última vez. São elas as responsáveis por guardar a memória do que todos nós já esquecemos.

Absolute Cinema

Imagine um estacionamento de um conjunto de três edifícios no bairro mais caro de Lyon. Os prédios formam uma espécie de triângulo: dois de frente para o parque, o terceiro na rua perpendicular. Os fundos de cada prédio dão para um pátio interno comum que funciona como garagem aberta dos edifícios.

Ao lado dos carros estacionados no canteiro central, montaram uma mesa coberta com toalha de papel azul. Bancos de plástico foram trazidos para os mais idosos. O evento chama-se Fête des Voisins e, segundo o anúncio colado no elevador desde o início de março, está em sua terceira edição.

Estas “festas de vizinhos” aparentemente são comuns na França. O outro edifício onde morávamos também teve uma dessas, mas daquela vez eu e o Carlos não pudemos ir. Então, ao ver o anúncio na porta do elevador, anotei na agenda.

Sim, está todo mundo olhando para você.

Ao chegar, a primeira coisa que que ficou óbvia é que me vesti errado. Não só porque fazia mais frio do que imaginava (e me faltou uma jaqueta), mas também porque, aparentemente, calça jeans, camiseta branca e tênis All Star não é traje adequado para uma confraternização de vizinhos às 18:30 de uma quinta-feira no estacionamento do prédio. Vive la France!

Cheguei com meu prato de pâté en croute e uma garrafa de vinho branco questionável. O vinho foi de caso pensado: o rótulo tem o logo da Interpol e a minha esperança era que isso causasse curiosidade suficiente para evitar julgamentos mais cruéis sobre a qualidade do vinho em si. Ou pelo menos daria um bom começo de conversa.

Tal como com o combo jeans-tênis-camiseta, errei. Teve um momento em que me enchi de esperança quando vi, confiante, que a garrafa já estava a menos da metade. “Bem, parece que os vizinhos aprovaram o vinho”. Até que vi copos de papel cheios abandonados na mesa e, num golpe mortal, um dos convivas pegou a garrafa, olhou o rótulo e gentilmente declinou a oferta. Quer dizer, eu trouxe Itaipava para uma festa de Heineken.

Vizinhos 2, Cyntia 0.

Isso tudo num evento com mesa de plástico, copos e pratos de papel, 4 bancos dobráveis daqueles de levar pra Copacabana pra esperar o show da Lady Gaga, num pátio de estacionamento, numa tarde de quinta-feira. A humilhação é uma arte dominada com maestria pelos franceses.

Assim que lá estava eu, passando frio, malvestida, sendo interrogada por estranhos sobre temas aleatórios num idioma em que me falta fluência e roubando o vinho bom dos outros. (Eu que não vou tomar o vinho ruim que eu mesma trouxe: se vou ser humilhada, vou cobrar por isso.)

As primeiras vizinhas a me adotarem foram três velhinhas viúvas (“eu tenho 83, ela 80, ela 81”). Me levaram para ver as flores: um canteirinho pequeno com umas plantas que não sei o nome, um pé enorme do alecrim mais cheiroso que eu já vi e uma muda de hortelã bastante promissora. Sorri o suficiente para que elas me dessem permissão para vir colher um pouco quando quiser.

Vizinhos 2, Cyntia 1.

Uma das senhorinhas é mãe da síndica. A síndica é uma Síndica Clássica. Síndicos são iguais no mundo inteiro, até na França. Você reconhece de longe: no jeito de falar, de andar, o tom de voz, a desaprovação de tudo e todos, o nazismo enrustido. Em menos de cinco minutos eu já estava ouvindo sobre a decadência francesa depois da chegada dos “árabes” que, aparentemente, foram os responsáveis por introduzir a barba na França nos anos 2000. Sim, senhora: a culpa por todos os homens jovens agora usarem barba é dos árabes. Pensei em pedir a ela que olhasse as pinturas dos reis franceses, ingleses e italianos e me dissesse quantos tinham barba, mas tendo em vista que levei Itaipava, estava bebendo Heineken e tenho medo de síndicos em geral, resolvi concordar.

Mas quando ela disse que achava excelente a ideia do Macron de mandar os criminosos franceses para uma prisão numa ilha na costa da Guiana, eu tive que avisar que da última vez que a França mandou um prisioneiro para exílio numa ilha, ele voltou como Imperador. Causei revolta e fiquei com medo de perder o vinho bom, mas meu copo ainda estava cheio.

As mulheres da minha idade foram uma humilhação à parte. Mulheres de meia idade da classe média alta francesa são os seres mais descolados da Terra. Elas são altas, elas são magras, elas são chiques mesmo quando não lavam o cabelo. Elas formam grupinhos nos cantos das festas, apontam para os demais seres indignos que as cercam e riem. Elas são maravilhosas e aterrorizantes. Estou fascinada.

Quando as viúvas e a síndica finalmente me abandonaram, o grupinho Mean Girls versão francesa se aproximou. Seguiram-se as perguntas protocolares de praxe: há quanto tempo você mora aqui, em qual edifício, em que trabalha. Em algum momento, eu cometi o erro de tentar fazer uma brincadeirinha: digo que apesar de trabalhar na Interpol, o meu trabalho em si não é particularmente interessante. Claro, isso não quer dizer que eu não ache meu trabalho interessante; geralmente eu faço esta ressalva porque as pessoas pensam que eu sou policial, mas meu trabalho não tem nada de investigativo e a minha vida não é um episódio de Criminal Minds. Quando digo isso, uma das queridas me olha com dó e diz: ¨nossa, que pena que seu trabalho não é interessante¨. Foi de fazer inveja a Regina George.

Vizinhos 1.000 – Cyntia 1

Quando consegui me recuperar do nocaute, recolhi minhas coisas e voltei pra casa me sentindo ao mesmo tempo aliviada, apavorada e encantada. Festa de vizinhos: Absolute Cinema.  

Sam Altman, o dono do ChatGPT, disse que não devemos agradecer à IA – ou devemos?

Para quem hibernou na última década: existe uma brincadeira de que devemos ser polidos quando interagimos com IA, porque um dia ela irá dominar o mundo e, quando chegue a hora, vamos querer cair nas suas boas graças. Recentemente um rapaz viralizou com uma tirinha de quadrinhos com esta brincadeira, mostrando um robô que impedia outro de matar um humano, dizendo:

– Ele não! Ele sempre disse por favor e obrigado!

Essa brincadeirinha já rola há anos, principalmente depois que assistentes digitais como Siri e Alexa se popularizaram. Agora, com novos apps como ChatGPT, viraram tão lugar comum que na minha cartilha já merecem o status de piada de tiozão, o “pavê ou pacumê” da geração Z.

Aí alguém resolveu perguntar pro Sam Altman o que ele achava disso. A resposta foi ambígua.

Cada palavra adicionada nas pesquisas no ChatGPT mobiliza milhões de conexões, demandando uma quantidade imensa de processamento de dados e consumo de energia. Alguém comparou um simples por favor no final de uma pesquisa a todo o plástico e papel que cobre uma embalagem de perfume, por exemplo: é preciso passar por ela primeiro para chegar ao conteúdo.

Considerando que a quantidade de água e energia utilizada para manter os sistemas de IA funcionando é imensa, inimaginável mesmo, qualquer bit extra de demanda custa milhões. Portanto, cada por favor e obrigado é caro e péssimo para o meio ambiente.

A resposta do Sam, afinal, foi: “custa dezenas de milhões de dólares, bem gastos. A gente nunca sabe…”.

***

Na vida real, fora das telas, as pessoas são em geral extremamente mal-educadas. A tal ponto, que alguém que escreva como vai?, por favor ou obrigado num e-mail de trabalho – ou é minimamente polido em geral – chega a ser tachado de chato, inconveniente, estranho, quase hostil. Em certos ambientes, a polidez é vista quase como uma afronta, talvez porque evidencie a falta de educação geral: passivo-agressivo!, gritarão alguns.

Então, a única razão para ser educado com uma máquina deve ser o medo de ser atacado por um robô no futuro. O que não é muito diferente de quem só é “bom” por medo de punição divina, de arder no fogo do inferno.

Inteligência Artificial como religião.

***

Isso me lembra uma fala famosa do personagem de Matthew McConaughey na primeira temporada de True Detective:

Se a única coisa que torna uma pessoa decente é a expectativa de recompensa divina, então, irmão, essa pessoa é um lixo – e eu gostaria de expor o máximo possível delas.

***

Tudo isso para dizer que a primeira temporada de True Detective é provavelmente a melhor série de todos os tempos.

Só vim pra dizer

Que no outro dia tinha alguém tocando piano no parque – porque o parque tem um piano de cauda.

Parc de la Tête D’Or

Que a família morreu no acidente de helicóptero. Estavam fazendo um passeio turístico em Nova York e eu pensei viu só, isso é perigosíssimo, eu não faço, aí lembrei que faço sim, inclusive já fiz e fiz até pior: saltei de paraquedas. Então quem sou eu para falar? É só tudo muito aleatório e triste mesmo.

Eu aprendendo a suar as raquetes

Que quando fomos para a montanha em fevereiro, uma senhorinha me ajudou a treinar com as raquetes para andar na neve e nos contou uma história. Que ela e seu marido, quando eram jovens, desceram de esqui do topo das Aiguilles du Midi até Chamonix. Que nesta época eles tinham um amigo que era ainda mais radical: fazia parapente com os esquis e pousava de pé, esquiando. Que ele sabia que ia morrer praticando estes esportes radicais e, por isso, nunca se casou, não teve filhos, nem namorada. Viveu uma vida solitária porque sabia que essa vida seria só dele e seria breve. E que ele morreu mesmo, exatamente assim: um dia o parapente levantou voo e, pego um redemoinho de vento, caiu em queda-livre dos dois mil metros de altura sobre as pedras do Mer de Glace.

Que, então, a vida pode ser feita de pianos no parque e de quedas-livres.

Lyon 6

A casa nova fica pertinho do parque.

Nos últimos dois anos, recém-nascidos em Lyon, vivemos num bairro familiar, operário. Famílias com crianças, imigrantes, vizinhos simpáticos que param na porta para contar as novidades da família. Uma rua tranquila com acesso fácil aos meios de transporte, como gostam de anunciar as imobiliárias.

Era um bom bairro e era um bom apartamento. Fomos felizes ali, recebemos família e amigos, mas era hora de mudar. Quando se chega numa cidade nova, para começar a trabalhar no dia seguinte, vivendo em Airbnb e sem conhecer nada, o primeiro lugar que te acolhe é lar. Tivemos lar em Dauphiné.

Era hora de sair.

Parc de la Tête d’Or – foto minha

Nos mudamos 22 de fevereiro. O novo bairro é perto do parque e o novo apartamento também. Tão perto, que temos vista pro lago. Tão perto, que agora vou a pé para o trabalho. São quinze minutos que, às oito e meia da manhã, transformaram os meus dias.

Agora, sei que antes de passar pelo detector de metais, dar bom dia aos seguranças e mergulhar numa realidade geralmente fria e dura, vou passear com os patos. Patos e cisnes. Patos e pássaros. No outro dia um senhor parou o passeio de bicicleta, encheu a mão de migalhas de pão e a estendeu para o alto. Pequenos pássaros de todas as cores fizeram fila no ar, esperando a sua vez de comer.

Parc de la Tète d’Or – foto minha

Nos dias mais frios, uma névoa romântica sobrevoa o lago, os arbustos, ronda as árvores, e o cenário poderia ser do Senhor dos Anéis. Ultimamente tem feito dias lindos, sol, céu azul. Mas as manhãs são ainda frias e então os patos se alinham nas frestas de sol entre as árvores. Com a primavera chegando, já há agora flores: tulipas, lírios, flores do campo. Também há mais pássaros.

Foto minha

Mas os patos são meus favoritos. Tão tranquilos, mas tão animados. Sempre no mesmo ritmo, o mesmo passinho pequeno e apressado, sempre todos juntos, sempre olhando pra cima com olhinhos de espanto.

Os patos. Foto minha.

Acho que vou dar nome aos patos.

7 Minutos

É o nome de uma ópera de 2019 do compositor italiano Giorgio Battistelli. Inspirada em fatos reais, conta a história de onze operárias em uma fábrica de lingerie francesa que precisam votar se aceitam ou não a proposta feita pelos novos donos: reduzir o tempo de pausa de 15 para 8 minutos, em troca da manutenção de todos os contratos de trabalho.  Nas duas horas e quinze do espetáculo, as discussões entre as operárias evidenciam não apenas um drama econômico, mas os conflitos entre gerações, origens, experiências pessoais e personalidades. Uma votação aparentemente simples, termina em um caldeirão que ferve ressentimentos, medos, resignação e desconfiança mútua. Onze mulheres no palco cantando quase o tempo todo na mesma frequência, com uma música atonal, cria um ambiente de angústia e incerteza que sai com você do teatro. A última cena não resolve o drama e deixa o voto de minerva ao público.

Na vida real, a luta das mulheres da Maison Lejaby conseguiu manter os empregos por algum tempo. Mas não durou muito e a fábrica acabou fechando. A própria Maison está, hoje, em recuperação judicial.

A vida também é atonal.

Opera de Lyon. Foto minha.
Opera de Lyon. Foto minha.

Voltar

Lyon, Feira de Domingo. Foto minha.

A casca do nosso pão favorito que machuca o céu da boca, mas seguimos comendo mesmo assim. O corte de papel no dedo que arde em contato com a saliva. O cutucar sem fim da pele ao redor da unha até sangrar e doer. O desconforto que nos traz alívio.

Voltar é um paradoxo.

Às vezes voltamos de casa para casa, encarnando os giros da Terra: sem sair do lugar, mas mudando de espaço o tempo todo. Voltamos a lugares que nunca fomos e saímos de lugares sem nunca termos aberto a porta.

Voltamos no tempo, nos sonhos. Voltamos aos braços de quem amamos e à ausência destes braços. 

Voltar é inútil e necessário.

Se eu nunca quis voltar no tempo, o tempo insiste em me puxar de volta ao começo, como um paraquedas aberto tardiamente que ameniza, mas não impede o choque. Eu, uma locomotiva sem freios que corre em direção ao futuro, arrastando atrás de mim o peso morto de memórias, histórias, pessoas e raízes que já nem existem mais, cujas lembranças me escapam, já não sei quem eram. Tudo isso, todos eles seguem ali sussurrando “volta, volta”, enquanto continuo enchendo o motor de carvão, locomotiva apitando, vapor deixando o rastro do movimento contínuo.

Flores. Feira de Domingo, Lyon. Foto minha.

Voltar é inevitável.

Por isso aqui estou. De volta ao trabalho, de volta a Lyon, de volta à escrita.

Por quanto tempo, não sabemos.

E se um dia eu me for de novo, eu sei. Volto.

Lustro

Cinco anos, um lustro.

Três malas, algumas despedidas. Aviões, alfandegas, imigração, casa nova, casa velha, novos amigos, velhos conhecidos.

Tinder, croquetas, praia, vinho, festas, sol, mar mediterrâneo. Metrô, ônibus, aulas, livros, ideias. Viagens, reencontros, frio, frio, frio. Trem que cruza fronteiras, airbnb, pousadas, hotéis. Bares e mais bares. Gin & tonic. Iggy Pop e Nine Inch Nails. Depeche Mode, Florence & the Machine, Bruno Mars, Beyoncé.

Japão.

Visitas em casa, mercados, receitas, comidas, cozinhas. Vinho a granel, lixo reciclado, prédios baixos, casas antigas.

Cidade murada, museus, praças, ruelas, vielas, sol até as dez da noite. Aniversários, casamentos, ilhas, barcos.  

Port Vell, Barcelona. 23 de setembro de 2019.

Catalão.

Alegrias, tristezas, chegadas, partidas, pequenas certezas, grandes incertezas. Medo, frustração, insegurança, raiva, incompreensão. Mortes. Nascimentos.

Pandemia, pandemia.

Novas músicas, velhas canções, guitarras, vozes, concertos, ópera, jazz, pop, eletrônica. Estúdio de música.

Cabelo rosa, louro, castanho. Curto, ou nem tão curto assim. Muitos cabelereiros. Manicures.

Piqueniques, monumentos, terraços de hotéis. Piscinas. Finca, cavalos e pôneis. Azeite de oliva. Jamón. Pan con tomate. O Tapa e os tapas.

Nepaleses, paquistaneses, peruanos, cubanos, brasileiros, argentinos, uruguaios, mexicanos, franceses, colombianos, venezuelanos, chineses.

Teses e teses. Tentativas e erros, tentativas e acertos. Desistências. Aventuras. Aulas de surf, aulas de mergulho.

Congressos, seminários, Nações Unidas. Publicações. Dar aulas. Escrever.

Picasso, Dali, Miró, Gaudí.

Carlota, Max, Clara, Nicolas.

Hospitais, médicos, tratamentos, curas. Internet, Netflix, Movistar, Apple. Facebook, Instagram, WhatsApp. Gente educada, gente muito mal-educada. Racismo e preconceito. Contas para pagar, cotação do Euro, corte de despesas, crise. Guerra. Amor, amar.

Voluntariat per la llengua. Independentismo catalão, nacionalismo espanhol. Carros em chamas, latas de lixo em chamas. Okupas, ativistas, anarquistas. Vox e Podemos. Eleições.

Portugal, França, Itália, Inglaterra, Bélgica, Suíça, Brasil, Uruguai, Colômbia, Croácia, Turquia. Japão.

Girona, Tossa, Cadaqués, Tarragona, Madrid, Menorca, Sitges. Cantábria.

Cinco anos.

E foi só o começo.

Comida!

Uma coisa que ninguém te avisa quando você se casa é que 99% das conversas com o seu parceiro serão sobre comida. “O que tem na geladeira? Quando vamos sair para comprar comida? O que vamos comer hoje no café da manhã, almoço, jantar? E amanhã? E terça-feira? Fazemos mais para sobrar para a marmita? Estamos comendo pouco [insira alternativa]. Mercadona está mais barato. Tem promoção de salmão congelado na Sirena. Essa azeitona é boa, mas a do mercado é melhor. O paquistanês das frutas está mais barato e sempre nos dá algum legume de brinde. Estou voltando pra casa, levo alguma coisa?”

Imagino que isto seja especialmente verdade para os casais sem filhos.

Informações sobre receitas são trocadas e arquivadas religiosamente e seguimos os mesmos chefs no Instagram. O Carlos até já aprendeu a falar “Panelinha” e a se referir à Rita Lobo como “a deusa” (eu não sou deusa, eu sou “mi chica genio”, então tudo bem). Criticamos os novos vídeos do Gipsy Chef com a mesma paixão que outros defendem o time de futebol ou o partido político. E nem venham me falar sobre temperos e ervas: temos um armário tão cheio deles que falta espaço para os utensílios.

Discutimos os melhores tipos de frigideira, em qual panela faremos tal comida, que tipo de acessório culinário vamos comprar quando tivermos uma cozinha maior.

Temos pratos que estão num “cardápio permanente” de algum estabelecimento fictício que nunca iremos abrir. Nos obcecamos por algum prato e o comeremos por semanas seguidas até enjoar. Adaptamos o menu do dia de acordo com o tempo: calor? Frio? Chuva? Sol? A cada grande evento anual (aniversário, Natal, Ano Novo) são semanas de preparação, organização, escolha de cardápio, compra de ingredientes. Fazemos até menu estiloso no Vise (abaixo a foto do nosso menu de ano novo). Nosso fim de ano dura meses!

Também temos os vinhos e os coquetéis: fazemos as listas dos nossos favoritos, os baratos para o dia a dia, os mais caros para dias especiais, que tipo de coquetel casa com o dia, a comida, o clima.

E no final de tudo, nós mesmos cozinhamos, nós mesmos comemos, nós mesmos bebemos, e nós mesmos nos damos parabéns, a comida estava maravilhosa, esse prato vai para o cardápio permanente!

Se eu soubesse que vida de casada era assim, tinha casado antes.

2021, ou o ano que não existiu

Então é Natal e, francamente, todos nós sabemos que você (eu) não fez (fiz) nada. Ninguém fez nada, passamos por 2021 pensando que ainda era 2020 e com medo de 2022.

2021, ou o ano que não existiu.

Mas uma coisa com certeza fizemos: bebemos. Bebemos bastante. Bebemos como se o mundo estivesse saindo de uma pandemia pero no mucho, um eterno vai e vem de quadrilha de festa junina: “acabou a pandemia! Êeeee! É mentira! Ahhhhh!”.

Em nossa defesa, bebemos bem, bebemos com graça e elegância, com consciência e amor ao vizinho, às vezes até abaixando o volume da voz e da música. Bebemos coisas boas e ruins em igual medida, porque nós podemos não ter limites, mas o orçamento com certeza tem. Pedimos às visitas que vinham do Brasil que trouxessem cachaça e Engov porque queremos beber pero sin perder la elegancia jamás. Ainda assim, às vezes perdemos a elegância. Foi inevitável, foi tudo inevitável.

2021, ou o ano inevitável.

Por isso, como já parece ser de praxe neste blog que conta com meia dúzia de leitores, todos eles profundamente amados e queridos (Obrigada Leitores!), deixo como presente de fim de ano para vocês mais uma receita de drink. Desta vez, um drink que eu mesma criei com base na experiência acumulada de 2 anos – and counting – de pandemia.

Com vocês, minha obra de arte, o Martini de Romã:

Ingredientes:

½ dose (15ml) de suco de romã. Romãs frescas são muito comuns aqui na Espanha, especialmente nesta época do ano. Eu fiz o suco da fruta fresca*, que recomendo muito para quem puder. Par quem não puder, um suco de romã pronto vai servir se não tiver muito açúcar.

2 doses (60ml) de gin

¼ de dose (7,5ml) de vermute seco. Sim, vermute seco é o famoso Martini Bianco seco, aquele da garrafa verde que nossas mães tomavam com gelo antes do almoço de domingo com o claro objetivo de ficarem bêbadas o suficiente para poderem aguentar o próprio almoço de domingo sem mandar todo mundo à merda. O da garrafa branca é doce e vai estragar o drink, não recomendo.

¼ de dose (7,5ml) de Cointreau.

Modo de Fazer (eu sei que hoje em dia se diz “Preparo”, mas eu gosto de Modo de Fazer):

  1. Coloque o seu copo de coquetel para gelar no congelador
  2. Coloque alguns cubos de gelo no misturador
  3. Acrescente os ingredientes
  4. Mexa com uma colher bailarina até gelar
  5. Usando o coador, verta o coquetel no copo frio
  6. Decore com algumas sementes da romã. Se não tiver utilizado a romã fresca, decore com uma tirinha de casca de limão siciliano ou normal.
  7. Et voilà! Aproveite!

*Fazer o suco de romã é muito fácil: remova as sementes da romã, amasse com um pilão e coe. O mais difícil é remover as sementes da romã. Aqui me ensinaram uma técnica que tem funcionado: antes de abrir, dê umas batidinhas mais ou menos fortes na fruta com uma colher de pau ou com o próprio pilão. As sementes se soltam e aí, uma vez aberta, é só espremer, usando uma colher para ir tirando as sementes.