Voltar

Lyon, Feira de Domingo. Foto minha.

A casca do nosso pão favorito que machuca o céu da boca, mas seguimos comendo mesmo assim. O corte de papel no dedo que arde em contato com a saliva. O cutucar sem fim da pele ao redor da unha até sangrar e doer. O desconforto que nos traz alívio.

Voltar é um paradoxo.

Às vezes voltamos de casa para casa, encarnando os giros da Terra: sem sair do lugar, mas mudando de espaço o tempo todo. Voltamos a lugares que nunca fomos e saímos de lugares sem nunca termos aberto a porta.

Voltamos no tempo, nos sonhos. Voltamos aos braços de quem amamos e à ausência destes braços. 

Voltar é inútil e necessário.

Se eu nunca quis voltar no tempo, o tempo insiste em me puxar de volta ao começo, como um paraquedas aberto tardiamente que ameniza, mas não impede o choque. Eu, uma locomotiva sem freios que corre em direção ao futuro, arrastando atrás de mim o peso morto de memórias, histórias, pessoas e raízes que já nem existem mais, cujas lembranças me escapam, já não sei quem eram. Tudo isso, todos eles seguem ali sussurrando “volta, volta”, enquanto continuo enchendo o motor de carvão, locomotiva apitando, vapor deixando o rastro do movimento contínuo.

Flores. Feira de Domingo, Lyon. Foto minha.

Voltar é inevitável.

Por isso aqui estou. De volta ao trabalho, de volta a Lyon, de volta à escrita.

Por quanto tempo, não sabemos.

E se um dia eu me for de novo, eu sei. Volto.

2 thoughts on “Voltar

  1. Que texto incrível! Eu consigo ler e “ouvir” você narrando ele. Me fez pensar sobre a necessidade da impermanência que temos —queremos e seguimos em frente, mudando, abandonando (ou tentando abandonar) o que nos prende, mas, paradoxalmente, sempre acabamos retornando – ou pelo menos assim desejando. Seja por escolha ou por força do tempo, o status quo tá sempre por ali nos chamando, mesmo quando achamos que já partimos de vez.

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