Último dia em Lisboa

Foi como deveriam ser todos os últimos dias. Fazia frio, mas o céu era o sempre inconfundível azul de Lisboa, quase dourado pelo sol.

Uma última caminhada lenta pelas ruas velhas, com seus prédios também velhos e muitas vezes abandonados, confirma o sentimento de uma cidade parada no tempo, congelada nos anos 80, impermeável às novidades do século XXI.

Entre paradas para olhar um último monumento, comprar sardinhas em latas enfeitadas e souvenires com imagens de bondinhos, chegamos à Praça do Comércio. Entre todas as praças que já vi, entre todas as muito amadas praças, essa segue constantemente como a minha preferida. Talvez seja a sua amplitude: localizada às margens do rio, é uma praça infinita, mais porto que cidade, mais partida que chegada, mais movimento que descanso.  

Praça do Comércio, Lisboa. 24.11.2021. Foto de cima, minha. Foto de baixo, Carlos.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio

E assim fazemos. Sentamo-nos à beira do rio para ouvir o músico de rua tocar guitarra portuguesa e observar os turistas tirando fotos entre os ambulantes que oferecem tudo, de chaveiros a drogas.

Conosco chega também um grupo de adolescentes portugueses em sua maravilhosa diversidade étnica: podem ser portugueses, angolanos, brasileiros, até asiáticos. Mas são portugueses, são adolescentes, levam suas bolsas de Mcdonalds e suas mochilas pesadas. Param ao nosso lado e um deles tira do bolso um pequeno papel. Uma das meninas saca o celular e, entre risos e perguntas de “Aqui está bom? Mais para lá?”, começa a filmar. O rapaz, papel na mão, passa a declamar para a câmera:

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Ao fundo, o artista de rua segue tocando lindamente a sua guitarra. Nós, dois turistas num êxtase quase confuso, sem entender muito bem que aquele poderia ser um momento real. Isso acontece mesmo? Acontece de estarmos os dois (mãos enlaçadas) casualmente neste lugar tão lindo, ouvindo música tão boa, com um poema sendo declamado ao fundo?

Um ambulante interrompe a declamação. Oferece badulaques e sorri para a câmera. Os adolescentes riem, não reclamam, exceto por um “ah, vamos ter que começar de novo”. E recomeçam.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Dessa vez o rapaz segue até o final. Termina de declamar sob os aplausos dos colegas e nossos. Agradece. Eu, sendo eu, não resisto e pergunto:

– Lindo poema. De quem é?

– Fernando Pessoa.

– Você sabe o nome?

Ele olha o papel.

– Aqui não tem o nome. Pode olhar. Se quiser, pode ficar com ele.

– Não precisa, só tiro uma foto e depois tento achar.

Pego o papel que ele me oferece. Leio em voz alta para o Carlos.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.

Aqui já estamos chorando, Carlos e eu, que sigo lendo com a voz embargada, fazendo pausas para ocultar soluços, as lágrimas gelam quando descem pelo meu rosto, o Carlos põe os óculos escuros para esconder as suas. Os adolescentes nos observam com curiosidade. Quem são essas pessoas?

Chegamos ao final do poema e, inevitavelmente, começamos a rir. Da beleza, do ridículo, da surpresa, da magia. Tiro as fotos do poema (a próxima parada será uma livraria, seria inconcebível sair dessa cidade agora sem um livro com esse poema nas mãos). Vejo que o papel é de uma atividade de aula de português. Tem instruções específicas, ir à beira do rio, ler o poema, filmar, enlaçar e desenlaçar mãos conforme instrua Fernando Pessoa/Ricardo Reis. Queria aulas de português assim, de passeios pela cidade e leituras de poemas. Queria aulas de qualquer coisa assim: passeios e poesias.

Devolvo a tarefa aos adolescentes com um misto de espanto e inveja. Agradeço, digo como é lindo o poema, nos levantamos e seguimos com nosso dia, agora em busca de uma livraria. Deixamos para trás os alunos com suas expressões surpresas. Nos damos conta de que, da mesma forma de que para nós este momento será inesquecível, também para eles terá alguma vida, se não eterna, pelo menos longa nas suas memórias. Imaginamos que dirão à professora que sim, foi bom o exercício, mas o melhor “foi esse casal, professora, você tinha que ver! Pediram o poema e começaram a ler e chorar. Chorar! Saíram muito emocionados, você ia ficar orgulhosa!” e piadas e brincadeiras seguiriam a descrição e a professora usaria o caso como um exemplo de alguma coisa, alguma prova definitiva do ponto que ela quer fazer, seja ele qual for.

Gostamos de pensar que foi assim que no nosso último dia em Lisboa nos tornamos parte de um poema de Ricardo Reis, personagens de aula de português, figuras permanentes de uma cidade que sempre nos recebe bela, sóbria, educada, de braços abertos e congelada num tempo em que música e poesia se encontram pela rua.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento de mais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as

No colo, e que o seu perfume suavize o momento –

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,

Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois

Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,

Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,

Pagã triste e com flores no regaço.”

Fernando Pessoa, Odes Escolhidas de Ricardo Reis

(Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith para Assírio & Alvim)

O Pijama

(foto minha)

Essa é uma história real. Inclusive tenho provas, evidências físicas de que aconteceu mesmo. Foi um ano antes do dia em que eu me mudei.

Sei, por exemplo, que o nome dela era Mercedes. Embora ninguém saiba onde ela comprou o pijama, sabemos que foi em uma loja de roupas usadas, não um brechó chique que vende bolsa Chanel semiusada a preço semicaro. Era uma loja de roupas doadas por gente comum, roupa de gente que morreu, de crianças que cresceram e de maridos que sumiram sem deixar vestígios. Apesar de estarem em bom estado, as roupas sempre tinham os seus pequenos defeitos, uma mancha, um remendo, um punho cerzido.

Mas não aquele pijama. Aquele pijama era imaculado, branco como neve recém caída, macio, suave, com pequenos bordados de renda na gola e no punho. Era uma maravilha. Foi só tocar no tecido fresco e delicado e Mercedes se sentiu especial, diferente. Levou o pijama para casa com o cuidado de quem carrega uma relíquia religiosa.

Nunca dormiu tão bem quanto naquela primeira noite com o pijama novo. Quase não foi um sono. Sentiu-se levitar como em uma viagem astral. Voou sobre a cidade, sobre a Catedral, o bairro Gótico, a praia, a montanha. Encontrou os seus mortos mais queridos e com eles sobrevoou todo o país, ultrapassou as fronteiras. Quando acordou estava mais leve do que nunca, mais jovem, alegre.

Esperou o quanto podia na cama, adiou o despertar, atrasou o café da manhã, queria seguir desfrutando daquela noite mágica. Mas tudo tem limites, a fome apertou e Mercedes por fim se levantou e trocou de roupa.

Foi aí que tudo começou. Ao tirar o pijama, desapareceu toda a energia e juventude que tinha experimentado até ali. Não, não era um cansaço normal, o desânimo de quem é forçado a despertar e encarar a mesma eterna rotina cruel e implacável que define a nossa existência. Era um cansaço monstruoso, um não poder levantar as pernas ou os braços, um impedimento físico de sequer abrir os olhos. Mercedes não sabe como conseguiu passar por aquele dia, até porque sua memória também foi profundamente afetada. Lembra-se apenas de haver saído para comprar alguma comida e de ter respondido a um ou dois e-mails do trabalho. De resto, só sabe que ao final daquele dia nefasto colocou o pijama e sua vitalidade voltou.

Agora se sentia jovem, animada, a mente rápida, os movimentos precisos. Passou as horas seguintes fazendo tudo o que não havia conseguido fazer durante o dia e dormiu outra vez o melhor sono da sua vida.

No dia seguinte, a juventude recém conquistada começou a apresentar sinais físicos: a pele ganhava viço e frescor, os braços e pernas mais fortes, o cabelo mais cheio e brilhante. Também a mente trabalhava em outro ritmo, acelerado, criativo. Cheia de confiança, atribuindo o caos do dia anterior a um vírus ou uma gripe, Mercedes trocou de roupa para ir trabalhar.

Mas de novo, imediatamente depois de tirar a camisa do pijama sentiu-se derrubada, pior do que no dia anterior. Agora via no espelho que perdia todo o vigor da pele, o cabelo voltava a ser fino e ralo, os braços fracos pendiam sobre um corpo encolhido e alcançavam pernas que já não a sustentavam bem. Passar por aquele segundo dia foi ainda mais exaustivo.  

Seguiu assim por semanas: colocava o pijama à noite e rejuvenescia; tirava o pijama pela manhã e envelhecia. Não demorou muito e Mercedes começou a atribuir essa misteriosa doença ao pijama, como não?

Passou então a usar o pijama por cada vez mais tempo. Afinal, quem não gosta de sentir-se jovem, bonita, alerta? Quem quer sentir a decadência diária do envelhecimento, ver as novas dobras e linhas e manchas que aparecem no corpo com impiedosa regularidade? Quem quer ser testemunha diária da entropia que terminará por nos desfazer em pedaços? Quem quer desaparecer? Ninguém, nem Mercedes.

O problema é que quanto mais tempo usava o pijama, pior era o seu estado quando o tirava. Se com o pijama Mercedes parecia uma jovem de 25 anos no auge da sua plenitude, quando o removia ficava cada vez mais velha. Cada vez tinha menos força, menos cabelo, a pele do rosto se rendia tanto à gravidade que Mercedes ficava irreconhecível. Aí ela voltava ao pijama e renascia aos 25 anos. E queria fazer as coisas de quem tem 25 anos, queria sair de casa, queria aproveitar esta chance única, este milagre. “Olhem para mim! Tenho 25 anos novamente, sou linda e jovem e desejável!”

Mas Mercedes não podia tirar o pijama. Não podia. Se no princípio até saíra de casa vestida com ele, logo se deu conta de que isso não poderia durar. Porque veja, o que acontecia é que não podia tirar o pijama nem para lavar. Nem para tomar banho. Porque agora, depois de tanto tempo com ele no corpo, quando o tirava não conseguia mais se mover. Não conseguia abrir os olhos e, mesmo que o corpo ainda aguentasse, a mente já não funcionava mais. Não sabia o que fazer ou aonde ir e ficava ali, nua, velha, encurvada, parada na frente do espelho, sem se reconhecer, sem saber seu próprio nome. No chão, um pijama amontoado aos seus pés  e que com muito esforço, talvez pela força do hábito, a Mercedes velha vestia e voilà, a Mercedes jovem.

Mas a vida tem os seus mistérios. A senilidade da Mercedes velha era uma benção, um alívio. A Mercedes velha não sabia da existência do pijama, não sabia de sua própria decadência, não sabia que tinha escolha. Mas a Mercedes jovem sabia. Sabia que tinha que escolher entre uma juventude aprisionante e uma velhice decadente. Escolher entre a Mercedes jovem, obrigada a usar para sempre um pijama que agora já não é mais imaculado, mas mero trapo sujo, malcheiroso e cinzento; e a Mercedes velha, decrépita, mas real, limpa, digna.

Foi esse saber, afinal, que a destruiu mais que tudo. Saber que podia escolher, saber que tinha que escolher, foi o último golpe na sanidade da Mercedes jovem. Ela podia suportar tudo, o mal cheiro e imundície do pijama, a sua própria sujeira. Mas não podia suportar saber que tinha escolha, não queria escolher. Porque também tinha visto o futuro, tinha visto o efeito implacável do tempo sobre corpo e mente e, agora, ela tinha escolha. Podia se livrar, podia escapar, havia saída para este destino aparentemente inevitável.

Podia ser jovem para sempre. Por um preço.

Isso foi um ano antes do dia em que eu me mudei para a casa que foi de Mercedes. Eu sei disso porque os vizinhos me contaram, mas também porque a vejo todos os dias. Porque Mercedes agora mora na rua, não pode trabalhar, não pode fazer mais nada, aprisionada que está pelo pijama. Também sei que a história é verdadeira porque todos os dias Mercedes passa na frente da minha casa, para e me observa. Com seu rosto jovem, seus braços e pernas fortes, seu cabelo brilhante e seu pijama imundo e indecente.

Minha Janela e a Casa da Ana

(Voltei! Depois de alguns meses de pausa por razões desconhecidas e indeterminadas, volto a postar meus textos aqui no blog. Espero não ter perdido os meus 2 leitores fiéis e as outras 4 pessoas que, educadamente, dão like nas redes sociais. Queria dizer que a perda seria deles, but who are we kidding? Hahaha!

No texto de hoje, conto um pouco da minha vizinha da frente. Certamente uma das minhas pessoas favoritas, se eu a conhecesse.)

Da minha janela preferida, alguém diria que não se vê muito. A escassos cinco metros de distância vejo a fachada do prédio da frente, a varanda e as janelas de um dos seus apartamentos. A fachada não é merecedora de nenhuma ode à arquitetura: feita de concreto em cor marfim, tem um ou outro relevo em forma de flor e algumas saídas de ventilação que não ferem os olhos. As janelas têm batentes brancos e uma grade cinza de ferro retorcido protege a pequena varanda do apartamento da frente, cuja persiana também cinza está quase sempre fechada.

Ao se aproximar do batente da minha varanda você também não verá muito mais. À direita, uma rua estreita com pouco tráfego, quase de pedestres, com prédios baixos e irregulares em diferentes estilos. Algumas casas. À esquerda, as mesas do bar da esquina com seus enormes guarda-sóis, um trecho de uma alameda e só.

Mas os que veem apenas isso, se não estão de todo enganados, estão ao menos perdendo algumas coisas.

Antes, há que se ver a própria janela antes de ver a do outro (contei a vocês que não é uma janela exatamente, mas uma pequena varanda de 2x1m?). Ao olhar para fora, vejo primeiro o que há dentro. Cortinas de algodão branco com um estampado de folhas em negro. As cortinas são propositalmente longas e as mantemos acima do chão com um nó na ponta que impede que elas se fechem totalmente. Tudo bem. Não fechamos cortinas. De junho a outubro a porta desta varanda estará permanentemente aberta, o que em si só já é um ato de rebeldia e quase um delito contra os costumes espanhóis. A janela aberta passa uma mensagem: aqui vivem contestadores da ordem estabelecida. A pequeníssima varanda também faz a sua parte. Tem uma cadeira onde nos sentamos no entardecer do verão para ver o sol se pôr sobre os telhados dos prédios, coisa também inédita nestas paragens. Se o sol estiver muito forte e tentador, os moradores já foram vistos ali de biquíni, filtro solar e tudo. A varanda tem piso de lajotas em tom de terra e é cercada por vidro de 1.5m de altura com um parapeito de metal. Deste parapeito pendem bolas laranjas de luzes, mas que por terem sido compradas no impulso, cobrem apenas metade do batente. Assim se dá que, durante a noite, nossos vizinhos veem uma varada iluminada somente pela metade. O mesmo parapeito sustenta um vaso retangular onde crescem sálvia e manjericão em velocidades assombrosas: se ontem as folhas eram pequenas demais para serem comidas, hoje já não sabemos o que fazer com tanta erva. Quando viajamos em junho elas passaram 3 semanas sem água e cuidado e, para todos os efeitos, morreram. Ao voltar, depois de lamentar os estragos, insistimos: regamos, cortamos tudo que estava morto e queimado, conversamos com elas e em 3 dias já estavam voltando ao verde. Na semana passada plantamos jiboias e pimenta vermelha, que já começam a brotar. Finalmente, num canto iluminado desta varanda que de pequena já parece gigante, cabe também um vaso de babosa, enorme, lindo, que grita “não me chame de Aloe Vera” a cada vez que vou regá-la. No chão, espremidos contra a porta como se os moradores quisessem esconder a bagunça, há pequenos potes, pequenas pás, pequenos ancinhos, pequenos sprays de água.  

É desta varanda que começamos a explorar a vizinhança e o que parecia banal e insignificante, começa a tomar cor.

O apartamento da frente, por exemplo. Sabemos que vivem duas mulheres: uma delas parece estar nos seus 60 anos e a outra é uma jovem beirando os 30. Não as conhecemos, mas imaginamos que sejam mãe e filha. Poucas vezes vimos algum homem na casa: nestas ocasiões, fizemos esforços para tentar descobrir se era irmão, primo, parente. Chegamos à conclusão de que era o namorado da filha quando, de repente, ele sumiu e nunca mais o vimos. Assim costumam ser os namorados. É claro que poderia ser um parente que brigou com a família, mas embora as duas mulheres não sejam nenhum exemplo de cordialidade e simpatia, não podemos imaginar que sejam tão complicadas a ponto de fazer pessoas desaparecerem. Ficamos com a tese do fim do namoro e desejamos à Ana (é o nome que damos à filha) toda a sorte nos próximos relacionamentos. De momento, o único relacionamento da Ana parece ser com uma bicicleta ergométrica que fica perto da janela, mas pelo andar da coisa, este relacionamento também está fadado ao fracasso (a bendita ergométrica já virou cabide, como costuma acontecer nestes casos).

É preciso dizer que Ana e sua mãe não são como nós: elas obedecem com fervor às regras mínimas de civilidade impostas pela sociedade espanhola e mantém as janelas, persianas e cortinas rigorosamente fechadas, não importa se o dia está maravilhoso ou se chove a cântaros e faz -3 graus. Mas ainda assim, sempre há um dia em que a janela precisa ser aberta e nestes momentos nós estamos aqui, atentos e com nossas portas, janelas, persianas e cortinas escancaradas a não mais poder.

Às vezes nos perguntamos se nós somos os causadores de tanta janela fechada na casa da Ana. Talvez sim. Afinal, exceto nós, quem quer ficar o dia inteiro assistindo ao que faz o seu vizinho da frente? Mas o dia é tão bonito, a noite está tão fresca, entra uma brisa tão gostosa, é preciso conversar com as plantas, é preciso bisbilhotar a fofoca no bar da esquina, é preciso descobrir mais coisas sobre Ana e sua mãe. São muitas as razões para deixar tudo aberto.

El Arte de los Pescaderos

Rambla de Badal, cerca del Mercat de Sants.

Los días seguían iguales. Recorría las calles aún vacías bajo la luz tenue del amanecer. El mercado oliendo a lejía y al café que calentaba las manos frías de los compañeros, el ruido de las persianas siendo levantadas, los buenos días, las sonrisas cansadas, los ojos aún no totalmente despiertos.

El mundo del mercado cambió poco para el pescadero. Es verdad que ha ganado nuevos clientes, gente que al verse presa en casa, en el barrio, en un día-a-día difuso entre lo habitual y lo lejano, encontró en aquel espacio resistente al tiempo una novedad. Gente que se confundía cuando se les preguntaba como querían su pescado. “No lo sé, es para hacer a la plancha”, le decían, dejando entrever el alivio de, aunque sea por una sola vez, dejar al otro la solución de sus problemas.

En estos momentos el pescadero se dedicaba más. Sus gestos cambiaban, tomados de propósito. Las manos, ya tan habituadas al frío y al roce de escamas y espinas, movían-se ágiles y firmes. Empuñaba el enorme cuchillo con firmeza y con un golpe preciso liberaba una dorada de su cabeza, un salmón de su cola, un lenguado de sus tripas, bajo la mirada fascinada de su audiencia. Se reía, explicaba la manera perfecta de cocinar el calamar, de freír unas gambas, de congelar la merluza. El confinamiento había hecho del pescadero un artista.

Bajadas las persianas, lavado el balcón, fregado el suelo, la vida fuera del mercado le espantaba. Sentía que algo hervía bajo la superficie de miedo perene, algo más allá del duelo por los enfermos y muertos se movía por la ciudad, por el mundo. Lo podía ver en la inquietud de su hija, en los silencios de su esposa, en las imágenes del noticiario. Lo podía ver en si mismo, en las copas de más que pasó a tomar los sábados, en el sueño que se le huía media hora antes que la alarma sonara.

Quizás por eso su trabajo en la pescadería dejó de ser solamente eso, un trabajo. Poco a poco, dejó de recordar lo no-vivido: la graduación en economía que no llegó a terminar, la oposición para los Mossos d’Esquadra que dejó escapar o el sueño de un pequeño hotel rural que Ester aún alimentaba. Todas ilusiones que asomaban la cabeza cada mañana al subir las persianas de la pescadería. Y si…, parecían decir.

Pero desde que empezó la pandemia, no más. En una ciudad abatida por el choque y el desamparo, su trabajo dejó de ser un accesorio, un acaso, un negocio que le dejó el padre de herencia y a lo cual se fue acomodando sin pensar mucho. Entendió el privilegio que era compartir un oficio con milenios de historia, una profesión que desde los famosos apóstoles pescadores de la Galilea, incluso desde antes, casi no había cambiado, y donde la inquietud tecnológica apenas había tocado. Un mundo que unía fe y milagros, artificio y naturaleza, dioses y hombres, poesía y alimento.

Ahora pensaba en todo eso mientras arreglaba meticulosamente la bancada de la pescadería y se preparaba para un día más en el cual fascinaría a los niños con los golpes de su cuchillo, explicaría a la pareja joven la diferencia entre los infinitos tipos distintos de mejillones y gambas, haría recomendaciones de cortes y recetas a la madre un poco desesperada y sonreiría con complicidad para las clientes asiduas delante de una audiencia creciente, hipnotizada e infinitamente grata.

Era más que oficio. Era arte. 

Gema, de Milena Busquets

Capa do livro

Este é um daqueles livros indefinidos, que a gente gosta demais e não sabe exatamente por quê. Não é um livro grande, não é um livro com roteiro complexo ou surpreendente, não é uma novela histórica cheia de detalhes e pesquisas, e embora haja uma morte, não é um livro de mistério ou policial.

A protagonista pode ou não ser a autora. Isso não fica explícito porque a personagem principal não tem nome, mas tem características em comum com a autora e o livro é narrado na primeira pessoa. Talvez este seja o grande mistério do livro e uma das coisas que mais me faz gostar dele.

A escrita não é elaborada, ou poética, ou impactante. É um relato “normal y corriente” da vida da protagonista enquanto busca esclarecer uma pequena dúvida: ela viu ou não viu a amiga por uma última vez no pátio do colégio antes que essa amiga morresse de leucemia, há mais ou menos 30 anos?

O enredo: duas mortes aconteceram no pátio do Liceu Frances de Barcelona em que a protagonista estudou, quando tinha 15 anos. Ali morreram sua amiga e, dois anos depois, seu pai. Não exatamente morreram ali, mas foi naquele pátio que uma das mortes foi anunciada (a do pai) e uma das mortes foi sentida (a da amiga). E ela se lembra da última vez em que viu a amiga na escola, justamente naquele pátio, onde se cumprimentaram meio sem jeito, sem saber falar sobre a doença que acometia uma delas e finalmente a levaria: semanas depois daquele encontro, a amiga morreria.

Mas a protagonista não tem certeza se aquele derradeiro encontro aconteceu mesmo, ou é fruto de sua imaginação. E em 150 páginas ela vai tentar resolver este mistério: quando foi que a amiga morreu? Ela esteve na escola naquele dia de fevereiro? Ou não era fevereiro? Alguém sabia o que tinha acontecido com a família? Alguém se lembrava?

Esta história simples gera todo o espaço para a protagonista nos contar sobre: o dia a dia com os dois filhos e seus respectivos pais, o relacionamento com o novo namorado, a sua preguiça e procrastinação do trabalho, as relações com as amigas, o chefe e a sua própria mãe.

Eu não sei por que gostei tanto deste livro. Acho que é principalmente porque o livro não tem um propósito, a história não tem um propósito, os relatos não são necessariamente conexos e relacionados com o que seria o fio condutor. São coisas acontecendo, a vida acontecendo e sendo contada com muita honestidade, espontaneidade e um humor muito fino, auto depreciativo. Mas é também lírico, delicado. A protagonista não está fazendo piada com si mesma, mas descrevendo como se sente, como fazemos com nós mesmos quando estamos sozinhos e podemos ser espontâneos.

É um livro sobre memórias, lembranças e as muitas maneiras que temos de ajustar a nossa história e criar novas memórias que sirvam ao nosso propósito: ela realmente se encontrou com a amiga, ou imaginou isso depois como forma de compensar o fato de não ter ido ao enterro, de ter perdido o contato com a menina? Em um determinado momento do livro, a protagonista conta como a mãe destroçou os álbuns de fotos de família minuciosamente organizados pelo avô, com nomes, datas, lugares, todas as fotos coladas em ordem cronológica, dezenas de álbuns que atravessavam gerações, destroçados pelas tesouras da mãe, fotos retalhadas e reorganizadas para contar uma outra história, criar outra memória.

É um livro sobre como todos nos apaixonamos e desapaixonamos o tempo inteiro, a cada segundo, a vida inteira, e que isso é apenas um ciclo, é o que é, não há nada que se possa fazer, exceto partir para a próxima paixão e tentar recriar as memórias do que ficou para trás.

Spoiler: jamais saberemos se houve ou não o encontro no pátio da escola. Mas isso, no final, não faz a menor diferença.

O Encontro

Foi marcado através de uma amiga. Apesar dos dois terem Tinder e OkCupid, nunca se cruzaram por ali.

Ele chegou antes e esperava na porta do bar, como combinado. Ela, diferente das outras vezes, chegou um pouquinho atrasada. Também não tinha se arrumado tanto: um vestidinho simples, tênis, pouca maquiagem. Já estava cansada de tantos encontros, já estava perdendo a paciência. Era sempre a mesma coisa, não alimentava grandes esperanças.

Lembra-se dos primeiros momentos de timidez, superados rapidamente pela simpatia dele. Quando entraram no bar, ela já estava tranquila e rindo, ele cumprimentando os garçons e fazendo brincadeiras. Pediram vinho da casa.

– Comemos alguma coisa?

– Estou faminta, respondeu ela.

Mais brincadeiras com os garçons, que recomendaram algumas porções que não estavam no cardápio. Enquanto conversavam amenidades (“de onde é a sua família?”, “ah, essa escola ficava do lado da casa minha tia!”, “fui pra San Francisco em 1997”, “detesto filme de terror”) o vinho ia fazendo efeito no estômago quase vazio e todo o encontro foi sendo tomado por um tom difuso, uma falta de nitidez que esfumava o contorno do todo e permitia a ela apenas observar os detalhes: as mãos gorduchas de dedos curtos, quase de bebê; uma mancha branca no tênis verde; um pequeno e breve solfejo no final da risada; o barulho dos copos sendo enchidos na chopeira.

Lembra-se de como ele fazia perguntas pessoais e ela, contra todas as recomendações dos amigos e das revistas femininas, resolveu responder com a verdade, só para ver até quando ele aguentava, até quando ele ficaria ali, pedindo outra taça, contando outras histórias, fazendo mais perguntas.

E assim foram ficando até o bar fechar, foram caminhando até começar a cair uma chuva fina, foram marcando outros encontros e outros bares e outras caminhadas. Acabou o verão, entrou o outono, chegou o inverno e eles continuavam caminhando, rindo, tomando vinho, esperando chegar a leve névoa que embotava o grande e autorizava ver somente o pequeno.

De pequeno em pequeno, se familiarizaram com cada detalhe um do outro, sem olhar em volta, sem se perder no grande. Sem grandes planos, havia mais espaço, eram mais livres e os anos passaram. Foram morar juntos e outros anos passaram, os detalhes se acumulando nas vidas deles como borboletas de colecionadores.

Hoje ela se lembrou do primeiro encontro por causa da chuva fina. Caminhou pelo bairro e passou pela porta do bar. Percorreu as ruas que, ela achava, tinham percorrido naquele primeiro dia. Estavam iguais, pouca coisa havia mudado em dez anos.

Dez anos.

Quando entrou em casa o peito ainda apertava. Tirou os sapatos na porta, pendurou a bolsa no gancho e num momento de desespero, sem querer aceitar aquela partida tão definitiva, de alguém ainda tão jovem (“a vida inteira pela frente”) com mãos de bebê e tênis manchados, gritou “Olá” para ninguém.

Vida de Bairro e Outras Histórias

Embora Barcelona seja considerada uma cidade grande, na verdade não passa de um bairro. Imagina então o bairro do bairro. É onde eu vivo.

Uma das coisas que eu gosto é que meu bairro vive de bilhetes. Sejam recados escritos à mão e colados nas paredes dos prédios ou postes, seja nos grafites, a ideia sempre é dar um recado, fazer um anúncio, pedir alguma coisa. É sair do prédio e alguém avisa que perdeu uma cacatua, outro anuncia serviço de cuidador de idosos, aluga-se vaga na garagem, vende-se e compra-se de tudo via papel sulfite, fita durex e letra de forma.

No outro dia um bilhete avisava aos passantes que a pessoa achou um par de óculos graduados e eu achei a coisa mais fofa do mundo. Quem faz isso? Acha um par de óculos na rua, leva pra casa, escreve um bilhete e cola na frente do prédio. Taí a foto que não me deixa mentir.

Bilhete na fachada de um prédio. Foto minha.

Os grafites também têm sua função de recados, mas às vezes simplesmente querem zoar com a sua cara. Um deles lembra aos humanos que é preciso recolher a caca dos seus cachorros. Outro – meu favorito – pede liberdade para Pablo Escobar.

Grafite. Foto minha.

Os recados e bilhetes não estão apenas na rua. No outro dia a vizinha da casa ao lado do meu prédio colou um bilhete na nossa caixa de correios. O bilhete é verdadeiramente genial, eleva o gênero passivo-agressivo ao nível de obra de arte: tem acusação explícita e xingamento velado, tem vitimização, tem autocongratulação, tem até punição para o infrator. Uma obra-prima que me faz ansiar pelo dia em que chegarei neste nível.

Bilhete na caixa de correios do meu prédio. Foto minha.

Outra coisa que eu gosto muito no meu bairro é que uma vez que você vá três vezes ao mesmo lugar (seja bar, loja, padaria), os donos ou empregados já te conhecem, te chamam pelo nome, eventualmente se dão ao direito de te dar uma ordem ou rir da sua cara. Ou os dois. No início, logo que cheguei aqui, achei ótimo. Criar comunidade, pensei; fazer amigos, pensei; consumir localmente, pensei. Agora às vezes tenho que fugir do açougueiro quando vou ao mercado (a carne dele é boa, mas é mais cara), dar uma sumida do bar do nepalês (ele manda a gente parar de beber) ou esconder as frutas na bolsa quando passo pelo verdureiro mais amigo (ele sempre me dá coisas grátis e eu não quero perder a boquinha, mas as frutas do outro são melhores).

Em vida de bairro, é preciso saber se esquivar.

Sessenta Metros

2/3 dos 60 metros. Foto minha.

Este é o espaço. É também o tempo. Sessenta metros. Antes era mais, antes era toda a cidade, o país, o mundo, todo o tempo do mundo. Cada porta abria outra, abria para um mundo sem barreiras, um mundo onde janelas eram só molduras. Sessenta metros eram apenas o ponto de partida para o infinito. Mas agora sessenta metros são só isso: sessenta metros.

Ainda assim, um mundo.

O Carlos chega do trabalho e depois de tirar a máscara e os sapatos na porta, corre para me abraçar com o maior sorriso do mundo e diz: “¡Oh, que bien! ¡Que bien estar en casita, es el paraíso!”. O paraíso. Como se fosse uma suíte de hotel cinco estrelas com vistas para a Torre Eiffel (minha ideia de paraíso e para onde espero ir depois de morrer). Mas são sessenta metros com vista para vizinha do prédio da frente e pro boteco do nepalês sorridente.

Nunca me imaginei esta pessoa, mas os sessenta metros são, mesmo, o paraíso. Sempre cheira a comida. Sopa de abóbora, curry de frango, bolo de laranja, feijão, pizza, pão, alho, peixe, pipoca, café. Sempre tem roupa pendurada no varal que fica no meio da sala e o cheiro de comida se mistura ao de detergente e roupa limpa. Quando faz sol, abrimos as janelas e entra o cheiro da rua e o barulho dos pássaros. Agora que é primavera, faz mais sol e há mais pássaros. Mas as plantas da varanda morrem pouco a pouco.

Sessenta metros.

O chão não aguenta nada, uma varrida e já está sujo de novo. Os livros e papéis se acumulam sobre o chão, as cadeiras, qualquer espaço livre. Há sempre copos d’água espalhados por todos os lados. Nunca arrumamos a cama, um permanente nó de lençóis, travesseiros e edredom. Sempre há garrafas vazias de vinhos baratos esperando ser recicladas, catálogos de promoções de supermercado com itens circulados, óculos perdidos e encontrados, louças por lavar.

Um paraíso que cheira a comida boa, detergente de roupas, plantas semimortas, vento mediterrâneo e fruta.

Eu poderia ter mais metros, menos cheiros, mais ordem. Eu poderia ter mais roupas, um chão impecável, cozinha esterilizada, cama arrumada todas as manhãs, área de serviço, faxineira. Já tive. Não quero. Quero o cheiro da sopa de abóbora e da roupa recém estendida perseguindo a gente pelos sessenta metros enquanto o Carlos chega do trabalho, me abraça e me diz: “¡Oh, que bien! Casita! Es el paraíso!”.

Um ano de confinamento: The Best Of

Foto minha

Sim, este fim de semana “””celebramos””” um ano de confinamento aqui na Espanha. Dia 13 de março de 2020 a Catalunha foi oficialmente fechada. No dia 14 foi a vez do país inteiro. Um ano de confinamento, lockdown, nova normalidade, abre-e-fecha, toque de recolher, distanciamento social, máscaras, luvas, álcool-gel, etecetera, etecetera, tudo o que vocês já sabem.

Neste ano distópico e com ares surrealistas, quero registrar aqui as duas coisas me salvaram a vida durante a série Pandemia: Temporada 1.

Não, não foi o meu marido. Sim, ele é ótimo, bonito, músico, talentoso, relax, lava o banheiro e a louça e somos mais ou menos recém-casados. Legal, mas não foi ele.

Não foi a yoga. Porque sendo bem franca, fizemos yoga por umas três semanas e depois nos rendemos ao sofá. Paciência.

Não foi a Netflix. Nem o Prime Video. São bons? São. Assisti o catálogo inteiro? Certamente. Porém a vida real tinha giros de roteiro tão mais surpreendentes, geniais, aterradores. Teve vilão e mocinho a perder de vista, teve eleição animada, teve mentiras, teve emoção, teve romance, teve até genocida e supremacista branco. Se eu não tivesse Netflix, bastava ficar ligada no noticiário. Então agradeço pelos serviços prestados, mas a Netflix também não me salvou.

Ah, diria o leitor! Foram as máscaras, o álcool-gel, o distanciamento social! Bem, tecnicamente sim, tudo isso salva vidas e certamente salvou a minha. Mas de uma maneira muito literal. Neste espaço prefiro ser mais lúdica.

Também não foi a Rita Lobo. É óbvio que ela é uma Deusa do Olimpo que veio para nos salvar do delivery frio e nos ensinou a fazer pizza, feijão, estrogonofe e infinitos Pê-Efes. Mas embora ela esteja no Top 5, não faz parte do duo máximo.

Os podcasts, então. Todo mundo sabe que eu sou viciada em podcasts. Eles também estão nos Top 5, com certeza. Especialmente o Talking Politics: History of Ideas, que me viciou de tal maneira que eu virei praticamente groupie de uma voz. Cheguei a stalkear o cara do podcast na internet, que Deus tenha piedade da minha alma. Mas não, também não foram os podcasts.

“Ai, essa ridícula vai dizer que foi o blog, que foi escrever, toda esta besteirada new age.” Não revirem os olhos ainda por que não, não foi o blog.

Senhoras e senhores, damas e cavalheiros, apresento os grandes vencedores!

Em segundo lugar, com um nível de consumo nunca antes visto, a medalha de prata vai para o vinho! Sim, senhores. Vinho, vinho, vinho. Caro, barato, muito barato, tinto, branco, espumante, rosa, doce, seco, velho, novo. Bebi tudo quanto foi tipo de vinho, nenhuma garrafa resistia à minha presença. Companheiro fiel, silencioso, sempre disponível, o vinho foi consolo e esperança. Até o governo espanhol concordou comigo e as lojas de vinho seguiram abertas o ano inteiro, porque são consideradas comércio essencial tal qual farmácias e supermercados.

E em primeiríssimo lugar, a medalha de ouro, o prêmio máximo, o podium desse Olimpo desgraçado gerado por um ano inteiro de medo e confinamento, vai para ele, o insubstituível, o clássico, o perfeito, o maravilhoso: Dry Martini!

Então, como presente para todos vocês que acompanharam a saga da pandemia comigo nestes posts, deixo aqui a minha receita perfeita de Dry Martini. Esta é a minha receita, aperfeiçoada por um ano inteiro de prática e adaptada ao meu gosto. Se você fizer e não gostar, olha, honestamente? Problema seu. 

Receita de Dry Martini Pandemico para uma pessoa:

2 doses (80ml) de gin. O meu preferido ultimamente tem sido o Martin Miller, por custo-benefício. Mas serve Bombay, Bombay Saphire, Tanqueray, que são mais baratos.

½ dose (20ml) de vermute extra-seco. Eu uso o da marca Martini mesmo. É barato e dá certo. Como dizem os catalães, não sofra por isso.

Azeitonas verdes.

Gelo.

Se tiver tempo, deixe a garrafa de gin esfriando na geladeira umas horas antes de beber. Ou deixe a garrafa morar lá dentro permanentemente. Eu deixo.

Uns minutos antes do preparo, coloque a taça no congelador.

Na coqueteleira, coloque o gin e o vermute. Adicione o gelo. Misture com uma colher de coquetelaria até esfriar bem o drink.

Verta o líquido na taça, sem o gelo. Adicione uma azeitona verde.

Desfrute.

And Fuck the Pandemic!

The Perfect Dry Martini (Foto minha)

Depois de Tudo

Foto de Carlos Rueda

Acordou, como todos os dias, às oito. Ela sabia que não era nem tão cedo assim, considerando que muita gente (a maioria, na verdade) despertava bem antes. Mas ela se permitia este luxo, acordar às oito da manhã. Era um dos poucos aos quais se permitia ultimamente.

Como todos os dias, fez seu café da manhã saudável, com frutas e proteína. Tomou um café pequeno, a vitamina C. Passou o filtro soltar, penteou os cabelos e se vestiu. Hoje não queria roupa confortável, queria projetar uma imagem de saúde e sucesso: vestido mais ou menos justo, uma jaquetinha bonita que ela quase não usava mais, tinha até esquecido dela! Arriscaria um salto? Bem, por que não? Um saltinho baixo não seria um problema, ela não ia andar muito.

Trocou de bolsa, sem esquecer dos fones de ouvido. Queria ouvir novamente aquele podcast de história que ela gostava. Já pronta, maquiada, bolsa em punho, fones conectados, respirou fundo e abriu a porta. Desceu as escadas, saiu do prédio.

Caminhou pelas ruas vazias por muito tempo. Podia ter sido meia-hora, podia ter sido o dia inteiro. Com a cidade completamente vazia, depois que quase todos morreram pela pandemia, e as poucas centenas que sobraram se refugiaram em alguma montanha longínqua, ela era, literalmente, a única pessoa vivendo naquele lugar.

Nos primeiros três anos ela enlouqueceu. Gritava constantemente para ouvir o som da própria voz. No calor do verão, saía nua para tomar sol no parque. Pegou tudo que podia das lojas mais caras e acumulou coisas e coisas em casa. Comeu e bebeu sem parar, usou todas as drogas e remédios que encontrou pelo caminho.

Até que um dia ela os viu.

Família e amigos há muito mortos, um dia simplesmente voltaram. Os amigos dos amigos. Os conhecidos. Aos poucos a cidade em sua cabeça se encheu novamente de gente, de brigas entre vizinhos, de mães com carrinhos de bebês e velhinhos com andador. Ela arranjou um emprego fictício, um namorado fictício e amigas fictícias. Era para eles que ela agora levantava cedo todos os dias e comia saudável e usava cremes no rosto e se arrumava e se pintava e cantava.

Também voltou a se preocupar com o aluguel e as contas que não tinha mais que pagar, com a gordura localizada e o colesterol, com as rugas ao redor dos olhos e a flacidez no pescoço. Voltou a se preocupar com tudo o que era superficial e irrelevante, com tudo que era feito apenas de aparências.

Naquele mundo pós-apocalíptico, ela encontrou na loucura da superficialidade a única forma de se manter sã.