Foi como deveriam ser todos os últimos dias. Fazia frio, mas o céu era o sempre inconfundível azul de Lisboa, quase dourado pelo sol.
Uma última caminhada lenta pelas ruas velhas, com seus prédios também velhos e muitas vezes abandonados, confirma o sentimento de uma cidade parada no tempo, congelada nos anos 80, impermeável às novidades do século XXI.
Entre paradas para olhar um último monumento, comprar sardinhas em latas enfeitadas e souvenires com imagens de bondinhos, chegamos à Praça do Comércio. Entre todas as praças que já vi, entre todas as muito amadas praças, essa segue constantemente como a minha preferida. Talvez seja a sua amplitude: localizada às margens do rio, é uma praça infinita, mais porto que cidade, mais partida que chegada, mais movimento que descanso.

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”
E assim fazemos. Sentamo-nos à beira do rio para ouvir o músico de rua tocar guitarra portuguesa e observar os turistas tirando fotos entre os ambulantes que oferecem tudo, de chaveiros a drogas.
Conosco chega também um grupo de adolescentes portugueses em sua maravilhosa diversidade étnica: podem ser portugueses, angolanos, brasileiros, até asiáticos. Mas são portugueses, são adolescentes, levam suas bolsas de Mcdonalds e suas mochilas pesadas. Param ao nosso lado e um deles tira do bolso um pequeno papel. Uma das meninas saca o celular e, entre risos e perguntas de “Aqui está bom? Mais para lá?”, começa a filmar. O rapaz, papel na mão, passa a declamar para a câmera:
“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)”
Ao fundo, o artista de rua segue tocando lindamente a sua guitarra. Nós, dois turistas num êxtase quase confuso, sem entender muito bem que aquele poderia ser um momento real. Isso acontece mesmo? Acontece de estarmos os dois (mãos enlaçadas) casualmente neste lugar tão lindo, ouvindo música tão boa, com um poema sendo declamado ao fundo?
Um ambulante interrompe a declamação. Oferece badulaques e sorri para a câmera. Os adolescentes riem, não reclamam, exceto por um “ah, vamos ter que começar de novo”. E recomeçam.
“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.”
Dessa vez o rapaz segue até o final. Termina de declamar sob os aplausos dos colegas e nossos. Agradece. Eu, sendo eu, não resisto e pergunto:
– Lindo poema. De quem é?
– Fernando Pessoa.
– Você sabe o nome?
Ele olha o papel.
– Aqui não tem o nome. Pode olhar. Se quiser, pode ficar com ele.
– Não precisa, só tiro uma foto e depois tento achar.
Pego o papel que ele me oferece. Leio em voz alta para o Carlos.
“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.”
Aqui já estamos chorando, Carlos e eu, que sigo lendo com a voz embargada, fazendo pausas para ocultar soluços, as lágrimas gelam quando descem pelo meu rosto, o Carlos põe os óculos escuros para esconder as suas. Os adolescentes nos observam com curiosidade. Quem são essas pessoas?
Chegamos ao final do poema e, inevitavelmente, começamos a rir. Da beleza, do ridículo, da surpresa, da magia. Tiro as fotos do poema (a próxima parada será uma livraria, seria inconcebível sair dessa cidade agora sem um livro com esse poema nas mãos). Vejo que o papel é de uma atividade de aula de português. Tem instruções específicas, ir à beira do rio, ler o poema, filmar, enlaçar e desenlaçar mãos conforme instrua Fernando Pessoa/Ricardo Reis. Queria aulas de português assim, de passeios pela cidade e leituras de poemas. Queria aulas de qualquer coisa assim: passeios e poesias.
Devolvo a tarefa aos adolescentes com um misto de espanto e inveja. Agradeço, digo como é lindo o poema, nos levantamos e seguimos com nosso dia, agora em busca de uma livraria. Deixamos para trás os alunos com suas expressões surpresas. Nos damos conta de que, da mesma forma de que para nós este momento será inesquecível, também para eles terá alguma vida, se não eterna, pelo menos longa nas suas memórias. Imaginamos que dirão à professora que sim, foi bom o exercício, mas o melhor “foi esse casal, professora, você tinha que ver! Pediram o poema e começaram a ler e chorar. Chorar! Saíram muito emocionados, você ia ficar orgulhosa!” e piadas e brincadeiras seguiriam a descrição e a professora usaria o caso como um exemplo de alguma coisa, alguma prova definitiva do ponto que ela quer fazer, seja ele qual for.
Gostamos de pensar que foi assim que no nosso último dia em Lisboa nos tornamos parte de um poema de Ricardo Reis, personagens de aula de português, figuras permanentes de uma cidade que sempre nos recebe bela, sóbria, educada, de braços abertos e congelada num tempo em que música e poesia se encontram pela rua.
“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento de mais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.”
Fernando Pessoa, Odes Escolhidas de Ricardo Reis
(Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith para Assírio & Alvim)











