The Lonely Duet

Foto minha

Tudo em dois. Duas taças, dois cafés, dois sanduíches. Se chega um terceiro, já não sabemos o que fazer.

Dois silêncios simultâneos, dois tempos em compasso. Dois dias que passam voando, duas lentas horas.

Dois instrumentos, computador e guitarra. Dois sons, água fervendo e chuveiro.

Dois dias, duas semanas, dois meses e, quando vimos, já eram dois anos. Dois fuso-horários, dois aniversários. Alguns raros amigos, acho que uns dois ou três. Duas histórias, muitas memórias.

Choramos as duas lágrimas que nos cabem nos dois minutos a sós.

Duas máscaras para cada um, dois potinhos de álcool-gel. Dois jogos de toalha, dois de roupa de cama.

Dois bares preferidos, dois bares fechados.

Muitos e muitos planos, dois que se concretizam. De duas aulas, fazemos três. De muitas ideias, escolhemos uma.

Outros dois instrumentos, guitarra e contrabaixo.

Na confusão de um mundo transformado em nada e silêncio, a imperfeição nasce como beleza. Dois universos, oriente e ocidente. Dois conceitos, fragilidade e impermanência.

Dois amigos, dois instrumentos, uma música.

Abobrinhas

Cuina Casolana!

Erra quem acha que só tem de um tipo. Eu achei umas abobrinhas redondas e gorduchas que parecem umas mini abóboras. Recheei de carne-moída e coloquei no forno. Foi uma perfeição. A foto está aí para provar.

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O manjericão da nossa varandinha morreu. Acho que foi o frio. Em março plantaremos de novo.

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Leonor de Aquitânia foi a mulher mais poderosa da idade média. Mais poderosa do que outros reis e príncipes. Casou-se aos 14 anos, aos 25 liderou a segunda Cruzada. Foi, ao mesmo tempo, Rainha da França e da Inglaterra. Teve 13 filhos.

Aos 15 anos, Mary Shelley fugiu de casa com o namorado casado, o poeta Percy B. Shelley. Era amiga de Lord Byron. Escreveu Frankenstein aos 18 anos. Depois da morte de Shelley, criou seu filho como mãe solteira e pagou as contas escrevendo livros e artigos para jornais e revistas. Antes de morrer, escreveu O Último Homem, um livro que prevê uma pandemia mortal e uma crise climática que dizima a Humanidade em 2050. Tudo isso entre 1797 e 1851.

Em apenas 19 anos de vida, Joana D’Arc liderou um exército, foi essencial para a vitória francesa contra os ingleses que pôs fim à Guerra dos Cem Anos e morreu queimada na fogueira como herege. 

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A vida é mais que romances e corações partidos.

Babilônia

A Babilônia antiga tinha um complexo sistema de saúde pública, com médicos e veterinários, além de uma agência reguladora que investigava e punia erros médicos. Mas além dos médicos que curavam doenças com ervas e remédios, havia os que investigavam as doenças a partir das suas causas religiosas: eles perguntavam ao doente o que ele tinha feito que poderia ter ofendido algum deus, e a partir daí buscavam feitiços ou sacrifícios que acalmassem o tal deus.

Mais de 3.000 anos depois, e às vezes parece que ainda somos babilônicos, só com palavras mais sofisticadas.

Cafeteiras, Viola Davis e fracassos

Minha cafeteira japonesa

Arrumar o armário da cozinha põe à vista a cafeteira japonesa fofa e pequenininha, e passamos a usá-la mais.

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As caipirinhas bebidas em casa numa terça-feira às três da tarde são as melhores.

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O mundo acaba de muitas maneiras diferentes. O mundo tem muitos modos de acabar.

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Uma lista de compras que inclui azeitonas é uma lista de compras melhor.

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Há mortes que insistem em ser mais presentes que outras.

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Podcasts. Muitos podcasts. Muitos podcasts de true crime. Muitos, mesmo.

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Fazer pão em casa é a coisa mais parecida com milagre que já vi na vida.

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Tenho um hábito estranho de recomeçar a cada três meses. Vivo em trimestres.

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Ameaças de bombas nucleares já não funcionam mais em séries e filmes. A gente ouve “uma bomba nuclear vai explodir em Los Angeles!”, revira os olhos, dá um suspiro, diz “ah, não…” e volta pra Law and Order.

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Aproveito que estou lendo quase sempre no Kindle e escolho os maiores livros possíveis.

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Estou me habituando a não chamar de louco quem é simplesmente mau, porque maldade não é loucura.

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Queria ver como serão escritos os livros de história que contam a nossa época, se os humanos ainda estiverem por aqui em 150 anos.

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“A vida é minha, para que a vergonha seja minha, o arrependimento seja meu.” Vi isso num filme e achei tocante.

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Qualquer coisa com Viola Davis.

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Quando finalmente fracassei, era tarde demais.

O exercício da memória

A música me lembra um disco específico. Uma coletânea de músicas do Queen que eu ouvi até arranhar, se CDs arranhassem com o uso. Eu me lembro claramente da capa negra com uma foto da banda, bem aleatória, algo como The Best of Queen. Lembro também do CD player portátil que incluía, convenientemente, um toca-fitas.

Não tenho mais o CD e nem o player, assim como já não tenho toda uma coleção razoavelmente respeitável de uns 100 ou 150 discos. Tudo foi doado quando minha mudança para Barcelona deixou de ser temporária e virou permanente (até segunda ordem. A vida é curta, o mundo é grande). Mas lembro dos CDs quando ouço as músicas que eles guardavam: o Spotify costuma ser pródigo em me levar a uma viagem no tempo.

Não sofro com a mudança do físico para o digital. Gosto de saber que tenho todas as músicas ao toque de um dedo em qualquer lugar. A simplicidade e organização que o mundo digital trouxe às nossas vidas é realmente algo maravilhoso: liberamos não apenas espaço, mas usamos menos plástico, produzimos menos lixo, e isso por si só já é digno de admiração. Mas existia algo um pouco mágico em ter uma coleção de CDs, LPs, fitas-cassete (chamo tudo isso de “discos”).

Porque convenhamos: nossas coleções de discos eram fascinantes porque eram aleatórias. Eram presentes de Natal e aniversário, misturados com uns discos dos nossos pais, outros dos irmãos, uma meia dúzia emprestada e que nunca devolvemos, além dos que nós comprávamos ou pedíamos especificamente. Ao escolher algo para tocar, subitamente éramos tomados por dúvidas entre gêneros, estilos, cantores e bandas tão diferentes entre si que nem a mais sofisticada inteligência artificial conseguiria conceber. Lupicínio Rodrigues ou Michael Jackson? Raça Negra ou Xuxa? Lynyrd Skynyr ou Clementina de Jesus? Os Saltimbancos ou Hit das Novelas? Estavam todos ali, um ao lado do outro. Íamos à fonte querendo ouvir Queen e, de repente, a capa do Sultans of Swing nos desviava do caminho da realeza.

Gosto muito da digitalização da música, e o Spotify me traz boas surpresas e lembranças. Mas ele não vai me oferecer Elymar Santos ou Alcione depois de uma canção do Guns & Roses. Isso, só quem teve o privilégio de empilhar LPs, fitas-cassetes e CDs pode entender.

Um exercício retórico

Foto minha

Eram quatro irmãs: Margarida, Rosa, Violeta e Hortênsia. Segundo relato de conhecidos, sempre foram muito próximas, melhores amigas umas das outras. Também eram tidas como boas pessoas, quase santas.

Margarida, a mais velha, sempre disposta a dar bons conselhos. Rosa, a mais amorosa, tinha talento para o artesanato e sempre levava um presentinho na bolsa. Violeta, a intelectual, era quem solucionava os problemas mais graves, e Hortênsia, a caçula, era a mais divertida e leve do grupo. Quando estavam reunidas era difícil não as notar, e até mesmo sentir alguma inveja de sua cumplicidade e alegria.

Por isso, a pequena cidade de 1.500 habitantes ficou em choque quando descobriu a tragédia. A coisa se deu assim.

Margarida, dominadora e cruel, se cansou de dar conselhos e ser ignorada por Hortênsia, uma irresponsável narcisista, e a discórdia entre elas tomou a forma de vingança mútua. Violeta foi tentar resolver o problema, que vinha se estendendo há meses, e ouviu das duas que ela não passava de uma arrogante estúpida que se achava intelectual por ter lido meia dúzia de livros idiotas de autoajuda. Ao que Rosa replica, “finalmente alguém diz a verdade”, só para ouvir que ela era uma chata insegura, que barganhava afeto com presentinhos horrendos que ninguém gostava.

Em algum momento da briga apareceu uma faca, um isqueiro e uma corda, e a partir daí não se sabe bem o que aconteceu. Mas a cena encontrada pelos bombeiros foi feia.

O mínimo

A nossa árvore de Natal

Foi o ano mínimo. O mínimo que podíamos fazer era ficar em casa. Era evitar o encontro e o abraço com aqueles com quem não convivemos. Era cobrir o rosto e deixar de fora o mínimo, os olhos. Apenas o medo foi máximo.

Os passeios foram mínimos, quase não saímos dos nossos bairros, ou até mesmo do nosso prédio. Quem se aventurou a viajar, fez a viagem mínima, ali pertinho, sem os amigos ou a família estendida. Os restaurantes e bares, quando podiam atender, atenderam no limite mínimo. Os aniversários foram pequenos, foram mínimas as celebrações.

Despejados do cotidiano de convivência máxima, as roupas ficaram penduradas no armário e usamos o mínimo. Gastamos nosso dinheiro no mínimo que podíamos fazer: comer e beber em casa. Aprendemos a fazer comidas que são o máximo, fizemos coquetéis gigantes, consumimos caixas e mais caixas de vinho, gin, vodca, limão, açúcar. Compramos panelas, batedeiras, máquinas de pão, fritadeiras. Era o mínimo que se podia fazer para adiar a depressão dos dias mínimos.

Teve quem trabalhou no máximo, dentro dos limites mínimos do home office. Teve quem não teve trabalho nenhum, e se viu pela primeira vez no mundo mínimo das filas de comida. Teve muita gente ajudando aos que estavam nesta situação: era o mínimo que podiam fazer.

Teve quem se mudou para algum apartamento com uma boa janela e entrada de luz. Qualquer mínima varanda, como a minha de 1x2m, virou o máximo. Nela plantamos babosa, manjericão e jiboia.

Teve quem adoeceu, teve quem perdeu saúde, amigos e familiares amados e viu a sua vida ainda mais diminuída. Teve também quem não fez nem o mínimo, colocou a máscara sobre os olhos, negou as evidências e saiu por aí sem eira nem beira, como se quisesse provar que a ignorância pode atingir níveis máximos. Teve também os que, dando de ombros, misturaram pensamento mágico com preguiça, e se às vezes faziam o mínimo, outras vezes não se davam ao trabalho, numa autoindulgência insensata e perigosa.

Chegamos a este final de ano mínimo ainda constrangidos por restrições, máscaras e distâncias. As cidades, que nesta época estão sempre animadas, fizeram apenas o mínimo, decorando algumas ruas amplas, mais como sinal de esperança do que de celebração. A poucos dias da chegada da vacina, nos dispomos a acender as luzes da árvore de Natal não como sinal de festa, mas como luz-guia. Os pequenos presentes que compramos uns para os outros são apenas símbolos mínimos que indicam que chegamos vivos ao final deste ano de morte.

O encontro

Foto minha.

A foto que amarelava no fundo da gaveta era a prova física de que o encontro existiu. Os rostos sorridentes sobrevoando as blusas coloridas, a janela aberta, a luz clareando o lado esquerdo da imagem eram, também, testemunhas fiéis. Uma foto tirada quando fotos ainda pediam filmes, negativos e tempo para serem vistas. Mas ainda demoraria até que fosse encontrada.

Neste meio tempo, apenas uma delas lembrava daquele dia. Lembrava com tanta clareza que podia descrever até a cor do taxi que a levou à loja de bolos. Porque também se lembrava do bolo de nozes que comprou para encontro, das flores compradas às pressas pela amiga que não trazia nada, das roupas que elas usavam, do perfume de patchouli da anfitriã, do leve cheiro de incenso da casa.

Mas para as outras duas mulheres o encontro nunca aconteceu.

– Vocês nunca foram juntas na minha casa, disse a anfitriã.

– Eu nunca fui à casa dela, disse a que levou as flores.

Mas ela sabia que tinha ido, sabia que o encontro havia existido. Não podia ser apenas uma criação da sua memória, ou podia? Não é a memória, afinal, criação? Criamos nosso passado construindo lembranças a partir de sensações que já não temos e lugares que não mais existem, mas cujo negativo ficou guardado em alguma esquina da mente, esperando o dia de ser revelado, não como um filme, mas como epifania de descobrimento.

Refletindo sobre isso enquanto dirigia, pensou que talvez houvesse algo errado com a sua construção da memória: e se ela apenas tivesse recolhido partes separadas de diferentes lembranças, formando uma colagem insólita e inverídica, porém verossímil, do encontro? Sem uma prova cabal ou testemunha ocular, como confiar na solidez das nossas memórias?

De repente, as perguntas foram se acumulando. Se estava tão errada a respeito deste evento, poderia estar errada também a respeito de outras memórias? Será que a casa de praia onde passava férias quando criança era mesmo como se lembrava? A comida da avó tinha mesmo aquele sabor suave de alecrim? Aquele primeiro namorado era mesmo um babaca?

Quanto mais as amigas negavam a existência do encontro, menos ela confiava na própria memória, e ao duvidar de uma lembrança, duvidava de todas. Assim, foi aos poucos eliminando seu passado inteiro: se era capaz de criar esta memória, poderia perfeitamente ter criado todas as outras. Se somos feitos, essencialmente, das nossas memórias, então quem somos quando as perdemos?

Nesta vertigem, perdeu a identidade e, sem ela, perdeu o presente e o futuro. Entrou em desespero, passou a vagar num nada existencial. Quando acordava passava horas se olhando no espelho e tocando a face, tentando descobrir se aquele era mesmo o seu rosto ou se também era uma lembrança falha de um rosto qualquer. Desconfiava do marido e passou a manter uma distância assustada dos filhos. Tentou escrever um diário, mas mesmo essa escrita também é criação: quem garantia que aquela tinha sido a lista do supermercado? Ou que ela tinha mesmo ido ao supermercado, e que tudo aquilo que registrou havia realmente acontecido? Não é o presente também passado, afinal? Quanto tempo leva o cérebro para registrar o presente?

Incapaz de seguir vivendo no terreno pantanoso da ausência de memória, procurou uma clínica e foi internada.

***

Hoje completo 34 anos na clínica. Há alguns anos uma das minhas amigas achou aquela foto amarelada durante uma mudança e a trouxe para me mostrar. Mas era tarde demais. Eu já havia passado muito tempo construindo e destruindo incansavelmente as minhas memórias. Agora sobram apenas escombros aleatórios e imagens desconexas. Já não sei quem sou, e acho que não me importo mais com isso. A foto do encontro, presa na parede branca do meu quarto, é agora a minha única lembrança.

Se um dia ela sumir

Foto minha

Começou com umas batidas estranhas no coração. Às vezes a velocidade aumentava, ou diminuía, ou pulava uma batida. No início ela pensou que não era nada, um susto, uma distração, um ajuste do corpo, como quando tiramos um fio de cabelo do olho ou uma pele solta no canto da unha.

Mas depois de alguns dias percebeu que perdia as pontas dos dedos. Perdia mesmo, perder do verbo “não estão mais lá”. Eram bem as pontinhas dos dedos, aquela parte gordinha que toca o teclado do computador ou do piano. A princípio não incomodava muito e ela pensou que estava enganada, seus olhos estavam pregando uma peça. Afinal, continuava conseguindo fazer tudo igual, inclusive digitar no computador e tocar piano.

Conforme as semanas foram passando, outras partes do corpo começaram a desaparecer. Um pedaço dos joelhos, a parte debaixo do calcanhar, a área ao redor do umbigo. Tudo estava lá, conseguia tocar todas estas partes com as pontas dos dedos que já não existiam. Mas não conseguia ver nenhuma delas.

Constrangida, com medo, procurou um médico. Ele a examinou detalhadamente, usou vários equipamentos, e no final disse que não podia fazer nada, porque não se pode curar uma parte do corpo que não está lá. “Mas está!”, gritou ela. “Está tudo aqui, eu posso sentir!” “Sim”, ele respondeu, “pode ser que você sinta tudo isso, mas não posso tratar o que não posso ver.”

A esta altura, outras partes já haviam desaparecido. No ônibus a caminho de casa perdeu os ombros, a bolsa ficou pendurada no vazio, os outros passageiros não notaram. Na esquina de casa foram-se os antebraços e uma das mãos fantasma colocou a chave na fechadura do portão do prédio. Quando entrou em casa, era tronco e cabeça.

No dia seguinte acordou sem corpo. O espelho não mostrava nada, o pijama dançava no ar, como uma marionete inflada num espetáculo melancólico. Lentamente, ela tirou a camisa, depois a calça e, totalmente nua e invisível, foi dançar na rua.

Ninguém nunca mais a viu.

A pessoa que não existiu

Foto minha

Esta é a história de uma pessoa que não existiu.

Mas não se enganem: trata-se de uma pessoa de carne e osso como nós, que respira, come, dorme, ouve, vê e fala perfeitamente. Um ser humano completo no sentido físico. Mas, mesmo assim, não existiu. Não posso dar a vocês o nome desta pessoa porque como ela não existiu, não tinha nome. Mas posso contar os detalhes que me levaram a descobrir a sua não-existência.

Minha esposa e eu moramos em uma cidade muito pequena no interior, mil habitantes. A pessoa que não existia morava na casa em frente à nossa. Não sabemos há quanto tempo ela morava na cidade, o que é estranho porque como vocês podem imaginar, um lugar com apenas mil habitantes não é nada mais que uma grande escola secundária cheia de intrigas e fofocas. Mas ainda assim, de alguma forma esta pessoa conseguia ser praticamente invisível. 

Nossa curiosidade começou na semana em que nos mudamos para a casa nova. Minha esposa, entusiasmada por algum episódio de Desperate Housewives, resolveu assar alguns bolos e levar aos novos vizinhos. Segundo ela, embora todos os destinatários dos bolos a tenham imediatamente convidado para entrar, a vizinha da frente não: apenas sorriu e agradeceu efusivamente, mas se despediu e fechou a porta. Sem cafezinho. Foi só quando chegou em casa, levemente irritada, que se deu conta de que a mulher não se apresentou.

Minha esposa e eu conversamos muito, conversamos o tempo todo na verdade e, admito, somos bastante fofoqueiros. Eu mais que ela, talvez. Compartilhei de sua leve irritação e me dispus a tentar descobrir o que acontecia. Não vou descrever os detalhes sobre como descobri tudo que vem a seguir, porque são muitos e não quero me alongar. Mas garanto que é tudo verdade, e se um dia nos encontrarmos, posso até mostrar para vocês provas materiais e evidências de tudo que estou contando aqui.

A pessoa que não existiu era uma mulher que podia ter tanto trinta como cinquenta anos. Sua aparência física era absolutamente normal, nem gorda nem magra, nem alta nem baixa, nem feia nem bonita. Vocês conhecem o tipo. Nenhum dos outros habitantes da cidade sabia quem ela era, mas o mais curioso é que quase nenhum deles sequer se lembrava dela, embora ela vivesse ali há anos. É como se ela cumprimentasse as pessoas, entrasse e saísse das lojas, e imediatamente se transformasse em fumaça em suas memórias. Quando começamos a indagar, éramos invariavelmente confrontados com olhares confusos, um dar de ombros, e um ou outro “Ah, sim, acho que sei de quem você fala…”.

Durante todos os anos em que fomos vizinhos, nunca recebeu nenhuma visita (acredite, nós saberíamos). Páscoa, Natal, Ano Novo, nada. Nunca a vimos conversar longamente com alguém, apenas saudações ou agradecimentos de praxe. Ela não tinha amigos identificáveis.

Trabalho num pequeno escritório de advocacia na cidade maior que fica a quarenta minutos da minha casa. Por causa do meu trabalho, conheço bastante gente nas repartições, bancos, polícia e até hospitais. Depois de tentar sem sucesso descobrir algo por meio dos nossos vizinhos, resolvi tomar medidas mais drásticas e fui fuçar nos registros públicos. Ela não tinha conta em banco nem cartão de crédito, pagava tudo com dinheiro. A casa não estava em seu nome, mas também não existia um contrato de aluguel, empréstimo, doação, nada. As contas de luz e água estavam no nome do proprietário da casa, um homem falecido há mais de cinquenta anos. Quando perguntei se não houve um processo de inventário sobre a casa para determinar um herdeiro, a mocinha do registro deu de ombros, como tantos antes dela: afinal, os impostos eram pagos religiosamente e nunca receberam nenhuma reclamação… ou seja: ninguém se importava.

A vizinha também não tinha um trabalho, pelo menos não um que pudéssemos identificar. Finalmente, não constava nem do censo da cidade, o que significa que, oficialmente, não estava entre os sete bilhões de habitantes do planeta.

Durante todos os muitos anos em que fomos vizinhos, nossa curiosidade nunca arrefeceu. Depois de um tempo, a considerávamos nosso mistério particular. Um dos nossos passatempos favoritos era criar histórias para explicar a inexistência da mulher: poderia estar fugindo de um marido violento, ou teria cometido algum crime? De vez em quando minha esposa levava algum doce ou comida para a vizinha, geralmente em épocas de festas. A mulher sempre a recebia simpática e sorridente, agradecia, e fechava a porta sem convites para entrar. Mais de uma vez tentou descobrir o nome da pessoa que não existia, e invariavelmente ia embora de mãos abanando. Sempre chegava em casa confusa, não sabia exatamente como a mulher conseguia se esquivar de responder uma pergunta tão direta como “qual o seu nome”, mas assim era.

Os registros policiais de pessoas desaparecidas não continham ninguém que se parecesse com ela, mas esta busca era prejudicada pelo fato de que eu não tinha nada dela, exceto uma foto de longe e não muito nítida que consegui tirar uma vez com o celular enquanto ela regava as plantas.

Até que um dia apareceu uma ambulância na porta da sua casa. Tocaram a campainha e, não havendo resposta, vieram até nós: teríamos por acaso a chave da vizinha? Era uma emergência, disseram. Não tínhamos, claro, mas ainda assim saímos vestidos em nossos pijamas e acompanhamos todo o drama. Tinham recebido uma chamada avisando que havia uma mulher passando muito mal, possivelmente até já morta, naquele endereço. A polícia chegaria em seguida, mas eles não podiam esperar.

Abriram a porta à força e a encontraram sem vida, sentada no sofá. Depois ficamos sabendo que a polícia não encontrou nenhum sinal de crime, a casa estava impecavelmente limpa e arrumada. Não havia na casa nenhuma fotografia, nem dela e nem de familiares. Não havia documentos, cartas, computador com contas de e-mails ou redes sociais. Não havia celular nem internet, apenas um velho telefone fixo e uma televisão. O que sim, havia, eram livros, muitos e muitos livros, mas nenhum deles tinha um nome identificando um dono. O policial responsável pelo caso, que ficou tão curioso quanto nós, disse que não havia sequer um lápis ou caneta. A chamada de emergência foi feita do mesmo telefone fixo da casa, por uma voz feminina.

A partir deste momento, a busca pela identidade da mulher que não existia passou por impressões digitais, reconhecimento facial e até exame de DNA, sem nenhum sucesso. A autópsia também não revelou nada mais: nenhuma doença, nenhum vício, nenhuma anormalidade, e embora oficialmente se tenha registrado a causa mortis como “natural”, o médico forense me disse depois que o correto teria sido registrar como “indeterminada”: ele não sabia como ou de que ela tinha morrido.

Passaram-se cinco anos desde sua morte e nada mais foi descoberto. A casa continua lá, vazia, intacta, silenciosa. Pouco a pouco até mesmo o policial e o médico forense se esqueceram do caso, e quando pergunto, fazem a mesma cara de espanto e confusão de todas as outras pessoas.

A mulher que não existiu vive apenas nas memórias minhas e da minha esposa. Só contei esta história para vocês porque se, um dia, nós também nos esquecermos, vocês se lembrarão.