Dreaming of the day we’ll have the money, time, health and travel permissions to go to this place.
I have no money, no job prospects, my PhD thesis is stuck on paragraph one of article one, Spain is working really hard to go into a second lockdown, bars and restaurants are closed all over Catalunya, I am unable to do my own pedicure without butchering my feet, I keep eating like there is no tomorrow (and maybe there isn’t) and I thought it was a good idea to spend money on an eyeshadow pallete. Which means that good sense and reason are also flying out the window, together with all my hopes and dreams.
I am writing this in English because the above was word for word a message I sent to a friend today on WhatsApp. But also, because somehow writing and speaking in a foreign language detaches me a little bit from my own person, as if all this was being said and done by someone else, a someone that may well live inside me but, come on, is not me. (The author will choose to ignore the fact that this may be an early sign of some serious mental disease.)
In case you’re wondering, this is what my dearest, wisest, down to earth friend told me as a reply:
Eating is good.
An eyeshadow pallete is a great way to make you happy.
PhD is overrated.
I have tips and tricks for at home pedicure.
She also reminded me that I managed to get married just 6 months before a mortal pandemic hit, so technically I am spending lockdown in a sort of weird honeymoon and this is, in itself, already a major struck of good luck. So, it is just wrong to go around complaining in the face of the have-nots.
After that, we cried over photos of sea-side villas with private pools on Lanzarote island, made an appointment to get drunk tomorrow at 10am via zoom call, and went about our day.
Odeio correr. Detesto. Acho correr por esporte, ou seja, sem um propósito digno – como pegar um ônibus ou impedir a criança de ir pro meio da rua – uma coisa sem sentido, um retrato claro da insensatez humana. Porém, a idade (e o peso que com ela vem sendo adicionado) requer medidas drásticas para manutenção da saúde e, infelizmente, parece que correr realmente é saudável. Então há pelo menos uns cinco anos venho tentando ensaiar umas corridinhas porque, né, no momento não tenho planos de morrer.
Além de detestar correr, detesto a “cultura da corrida”. Se tem uma coisa que precisa acabar é a “cultura da corrida”. Quando alguém como eu tenta sair pra correr, geralmente dá de cara com uma gente chique, magra, que corre de maneira elegante, que corre muito mas não sua, não bufa, o cabelo não sai do lugar, o rosto não fica vermelho-pimentão, as roupas combinam. Uma gente que corre de coluna ereta, barriga pra dentro e cabeça erguida. E esta gente corre de verdade, sabe correr, corre uns quilômetros enormes (não sei vocês, mas os meus quilômetros têm no máximo uns 200 metros). E isso me desanima ainda mais a correr, por motivos de vergonha. Não tenho condição nenhuma de me unir a esta tribo, não tenho nem roupa pra isso, muito menos postura.
Eis que vim morar em Barcelona e tudo melhorou. Não que Barcelona não tenha TCC (Tribo da Corrida Chique). Tem, mas a galera TCC em geral fica lá na praia da Barceloneta, são uma minoria e ninguém gosta deles. E como eu não moro na Barceloneta, mas em um bairro pouco turístico composto de 70% velhinhos e 25% famílias com crianças, sobram uns 5% de gente normal como eu que se vê obrigada a fazer algum exercício físico com o único propósito de driblar a morte por alguns escassos anos.
É gente que corre que nem eu: de má vontade, sofrendo, querendo parar no próximo passo. Gente que sua muito, que corre olhando pro chão pra ver se sofre menos, os braços em uns movimentos descoordenados e aleatórios. O meu rosto, por exemplo, fica tão vermelho que quando noto as pessoas me olhando fixamente já sei que tenho que parar (já tive gente vindo me perguntar se eu estava bem, de tão vermelha que fico). Nós, os 5% do bairro, corremos de tênis velho, meias desbeiçadas, short Adidas circa 1980, camiseta com manchas não-identificáveis e alguns furinhos, ignorando todas as regras básicas da combinação de cores.
Corremos com cara de sofrimento e olhar triste, respirando pesadamente, rezando pro sinal abrir pros carros quando estivermos pra atravessar a rua. Corremos muito devagar, devagar mesmo, devagar a ponto de competir com os 70% que saem para caminhar com os seus andadores. Considero até um ato cordial esse nosso, não queremos sair por aí exibindo nossa juventude perto desta comunidade querida dos velhinhos dos andadores. E quando alguém nos passa correndo ligeiramente mais rápido que nós, esteja certo, esta pessoa vai parar logo em seguida. Porque este também é o nosso método de corrida: corre um pouquinho, anda um pouquinho.
Depois de um tempo, você já se sente parte desta comunidade dos que odeiam correr, mas correm mesmo assim. Nos cruzamos com breves sorrisos de reconhecimento, acenos delicados de cabeça, olhares de compaixão mútua: “eu te entendo, também não queria estar aqui, esta tua camiseta é da Olimpíada de 92?”. Olho com carinho a moça que me ultrapassou, mas voltou a caminhar 100 metros adiante. Sei o que passa na cabeça dela: “vou até a esquina andando e aí volto correndo porque é descida”.
Eu também faço isso, amiga. Na descida, todo santo ajuda.
Foto minha de um dia de sol na praia em Sitges, Catalunya. 17 de Agosto de 2020.
“No te preocupes. Yo he hablado con Diós y hoy por la noche tendremos brisa fresca”.
Imediatamente depois desta frase, meu marido arregala os olhos e me diz que não falou a sério, era uma brincadeira. Eu entendo a sua preocupação. Ele sabe que eu sou católica, cresci numa família religiosa, de fé firme, de padres que dividiam a nossa mesa de almoço no domingo ou em uma terça-feira qualquer. Meu próprio pai é Diácono. Para quem não tem o hábito desta convivência íntima com o cânone, mencionar que conversa com Deus assim, como sem mais, pode ser ofensivo. Mas não para mim. Aliás, não para a nossa família.
O tranquilizei relatando uma das poucas memórias que tenho muito claras da minha infância. (Desconfio demais de quem diz que lembra muito da infância, em detalhes assombrosos. Minhas memórias desta época são difusas e escassas, uma ou outra imagem borrada, momentos aleatórios).
Tenho dois irmãos. Quando éramos crianças, bem crianças mesmo, provavelmente idades entre 6 e 10 anos, a família rezava junta todas as noites antes de dormir. Fazíamos um círculo na sala, mãos dadas e rezávamos, provavelmente alguma Ave Maria e um Pai Nosso. No final, vinham os pedidos de praxe dos meus pais por saúde, prosperidade, etc. Disso, não lembro tanto.
O que lembro com muita, muita clareza, era que eu e meus irmãos nos revezávamos quando chegava a hora dos pedidos das crianças. Nós três tínhamos sempre o mesmo pedido, e por isso a cada noite um de nós era o designado para dizer em voz alta:
– Queremos pedir que faça sol amanhã.
Era isso. Essa era a nossa grande preocupação, o nosso grande tormento, o que definiria de maneira inexorável todo o nosso futuro, o sucesso ou fracasso das próximas vinte e quatro horas seriam determinados por aqueles segundos, quando a nós era permitido pedir diretamente a Deus, diante dos nossos pais, que fizesse sol amanhã. Íamos dormir na expectativa confiante de que Deus certamente ouviria o nosso pedido: amanhã vai fazer sol.
Dado que morávamos em Niterói, a probabilidade de que fizesse sol no dia seguinte era bastante grande. Acho que Deus se atrapalharia mais se pedíssemos um dia com quinze graus, uma garoa fina, ou somente uma brisa fresca: isso sim daria trabalho a São Pedro.
Contei esta história ao Carlos e o tranquilizei. Se nós podíamos pedir a Deus que “fizesse sol amanhã” quando éramos crianças, acho bastante justo que ele possa pedir que “faça brisa fresca hoje à noite” na idade adulta.
Deus pode estar confuso com a nossa impertinência irresponsável diante da peste pandêmica. Mas acho que “brisa fresca” talvez seja um pedido que ele esteja inclinado a atender.
Fim do dia, um calor miserável, o termômetro marca 29 graus às dez da noite.
Dia dos pais, falei com o meu pelo video do WhatsApp, e ele me disse que ia pedir lasanha para o almoço. Resolvemos pedir lasanha nós também, mas para o jantar.
O restaurante que entrega manda uma bolsa bem lindinha. Serve para ir no mercado.
Gelamos o vinho, jantamos tarde.
E mais não direi porque mais não houve. Apenas um domingo quente, anônimo, distante e silencioso.
Drink de vodka com melancia que o Carlos inventou a uns dois anos atrás, e o livro mais lido da casa. Foto minha.
Para quem anda me perguntando se voltamos à quarentena aqui em Barcelona, sinto informar que vocês se enganam e as notícias são um pouco piores.
Só “volta pra quarentena” quem saiu dela. Enquanto o vírus existir, enquanto não houver tratamento eficaz e amplamente disponível, enquanto não houver uma vacina segura e pelo menos metade da população mundial vacinada, ninguém vai sair da quarentena, nem eu e nem vocês. Podemos até sair de casa, fingir pra nós mesmos que a vida voltou ao normal; podemos mergulhar no autoengano e programar férias e até mesmo comprar passagens. Mas você não vai sair da quarentena. Você ainda vai ter amigos contaminados e mortos pelo vírus, seus pais e avós idosos ainda estarão em risco, você ainda vai ser invadido pelo medo de vez em quando, você ainda vai usar máscaras e álcool-gel, você ainda vai manter distância das pessoas.
E você ainda vai querer ficar em casa o máximo que puder.
Por algumas semanas a coisa pode se acalmar, como aconteceu aqui, e iremos conseguir ir a um bar uma vez por semana, e ver um ou outro amigo. Mas fora isso, nós vamos é ficar em casa mesmo, muito mais tempo do que o normal e por muito mais tempo do que imaginamos.
Se você ainda não o fez, compre um livro com receitas de coquetéis, uns apetrechos de bar e encha a adega. Aprenda a cozinhar e compre uma batedeira.
“Não me iludo. Tudo permanecerá do jeito que tem sido.” Gil, Gilberto.
Existe uma treta aqui na Espanha a respeito do horário oficial espanhol. Não sei se vocês sabem, mas a hora solar da Espanha é GMT e não a que tem agora, GMT+1.
Eu só descobri isso depois que vim morar aqui, quando rolou o “Grande Evento Anual de Reclamação sobre Horário de Verão”. Eu, como sempre adorei esta mudança de hora, achei que na Europa estaria livre da polêmica. Me enganei redondamente. Aqui é a mesma treta: metade da população odeia, a outra metade ama, e anualmente eles se ofendem mutuamente na internet durante a Grande Semana da Mudança. E foi durante uma dessas batalhas online que eu acabei descobrindo que a hora oficial da Espanha já é normalmente uma hora adiantada com relação ao horário solar. Portanto, quando entramos no horário de verão estamos duas horas à frente: às 14:00 o sol é do meio-dia.
E toca tentar descobrir por quê. A lenda urbana mais prevalente diz que a mudança ocorreu por ordem de Franco simplesmente para agradar ao seu “parça” Hitler, e que acabou não sendo revertida. Isso inflama ainda mais os ânimos. Mas a verdade parece que é outra, embora sim envolva Hitler e Segunda Guerra Mundial. A história é a seguinte: tecnicamente não só a Espanha, mas França, Luxemburgo, Bélgica e Holanda deveriam estar em GMT, mesmo horário de Portugal, Inglaterra e Irlanda, por exemplo. E estes países estavam lá quietinhos no seu GMT de origem durante muito tempo.
Foi na Primeira Guerra, com o propósito de economizar energia, que se deu o primeiro registro da adoção do horário de verão na Europa (adiantar a hora durante os 6 meses do verão, voltar ao normal no inverno). Terminada a guerra, muitos países decidiram seguir com esta alteração periódica.
Aí, durante a Segunda Guerra a Alemanha impôs o horário de Berlim (GMT+1) aos territórios ocupados, entre os quais estavam França, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Na sequência, Portugal, Espanha e até mesmo o Reino Unido resolveram também alterar o seu horário para GMT+1 por uma série de motivos: além da economia de energia, no caso do Reino Unido isso permitia que os trabalhadores voltassem para casa ainda com a luz solar, e antes que começassem os blackouts anti-bombardeio. É possível que na Espanha houvesse também uma tentativa de agrado à Alemanha nazista, porque essa gente é louca e capaz de tudo. Mas há registros de que a primeira mudança desta natureza se deu em território Republicano e que durante algum período da Guerra Civil a Espanha teve dois horários, até que o franquismo vencesse e unificasse tudo. A Espanha mudou oficialmente para GMT+1 em março de 1940, mais ou menos um mês depois da alteração da hora na França.
Nada disso interrompeu a adoção do horário de verão neste período, o que significa que durante os anos da Segunda Guerra estes países ficavam em GMT+2 durante o verão. Com o fim da guerra alguns países decidiram não fazer mais a alteração semestral, porém se mantiveram em GMT+1 permanentemente. Isso durou até a crise do petróleo dos anos 70, que levou à necessidade de economizar energia e novamente ao horário de verão.
Portanto, desde então, não só Espanha, mas França, Holanda, Bélgica e Luxemburgo, vivem um verão com duas horas de vantagem sobre o sol, fazendo com que nossos dias sejam longuíssimos, com o sol se pondo às 21, 21:30, dependendo do mês.
Eu gosto muito dos dias longos e fico triste só de pensar que tem gente pedindo não só para que o horário de verão seja extinto, mas para que a Espanha volte ao seu GMT de origem. Se isso acontecer, talvez eu tenha que buscar algum país com o sol da meia-noite.
Quadro “A Extração da Pedra da Loucura” de Hieronymus Bosch
Quando chegar o dia eu quero estar no palco, não quero assento VIP ou camarote, quero estar bem no miolo da ação.
Quando ficarmos todos loucos, sairemos às ruas apenas para rir dos outros. Vamos apontar indistintamente para os passantes e vamos morrer de rir uns dos outros sem nenhum motivo. Vamos tirar os sapatos e atirá-los nos pombos, vamos subir no ônibus pela porta errada, vamos gritar dentro do metrô e puxar a alavanca de emergência porque a própria alavanca nos pediu. Tiraremos a roupa no meio da rua cheia e correremos nus em direção a abraços inviáveis.
Vestiremos roupas de tartaruga ninja e não será apenas uma fantasia: efetivamente seremos as tartarugas ninjas, nos comportaremos como tal, vamos brigar com os vilões imaginários nas calçadas e salvar o mundo ao lado do nosso amigo Donatello. Seremos princesas e dragões e dinossauros e Batman e coringa e borboletas, e vamos todos assistir a uma multidão de super-homens saltar pro seu último voo do alto dos prédios.
Quando ficarmos todos loucos vamos pintar as alfaces de rosa, cada folha, uma a uma. Vamos comer com as mãos e beber com colherinhas de chá. Vamos sair em expedições impossíveis que nos custarão a vida, e milhares de pessoas virão atrás de nós, porque seremos todos pregadores visionários, sábios e médiuns. Teremos longas conversas reais com os deuses, discordaremos deles, mas faremos sacrifícios em seu nome. Não dormiremos, usaremos drogas pesadas que nos manterão acordados para sempre, os olhos muito abertos, a visão muito turva.
As mãos vão tremer constantemente, mas vamos poder correr como nunca, e correndo, correndo, correndo eternamente sem parar, viajaremos para os lugares mais distantes sem nunca mais voltar ao ponto de partida. Nos esqueceremos de todas as pessoas, não teremos nem família, nem amigos, nem conhecidos, todos serão apenas outras pessoas vestidas de heróis e vilões pela rua, correndo como nós, lutando contra nós.
Quando ficarmos todos loucos não haverá romance porque a ideia de outro se perderá na loucura, o outro e eu seremos a mesmíssima coisa, sem tirar nem por, e num minuto eu o odiarei e desejarei a sua morte, e no minuto seguinte eu o amarei como jamais amei coisa nenhuma e lutarei pela sua vida com todas as forças, exatamente como fazemos com nós mesmos.
Dias e noites se sucederão aleatoriamente, não haverá hora, não haverá calendário. Sol e lua, claro e escuro, irão trocar de posição quando bem entenderem, e nós nos acostumaremos a nunca saber. Quando ficarmos todos loucos o espetáculo será decadente, degradante, assustador, enternecedor, inimaginável. E é por isso que eu quero estar no palco. Porque o espetáculo da loucura só será suportável se você também for louco.
Desculpe frustra-los, mas a internet é maravilhosa. E também o são as redes sociais.
Vivo longe da minha família e cidade natal desde 2001. Naquela época, quando eu morava em Londres e todas as minhas referencias de vida estavam em Niterói, era através da internet, ainda que por meio de conexão discada e ruim, que eu mantinha contato com minha família e amigos. Na minha volta em 2003, foi através dela que eu consegui um emprego em São Paulo, e de lá continuei o contato com os que estavam longe por meio da mesma via.
De lá para cá a qualidade da nossa conexão mudou. Não dependemos apenas do e-mail, de um Skype de qualidade duvidosa, ou de um serviço a cabo lento e caro. Há serviços Wi-Fi espalhados por todo lado, smartphones, câmeras cada vez mais potentes, equipamentos cada vez mais fáceis de usar.
E aí, queiram ou não, o surgimento das redes sociais nos conectou ainda mais. Encontramos amigos perdidos há tempos, retomamos contato quase diário com quem somente falávamos por telefone duas vezes por ano. Foi por meio delas que acompanhamos o crescimento dos sobrinhos, a formatura do primo, a gravidez da amiga. Através de redes sociais diversas, desde os idos de ICQ e Orkut, conhecemos gente inteiramente nova. Amizades que começaram apenas virtualmente, de repente viraram amigos de carne e osso dividindo a conta da cerveja no bar.
Tive companheiras de trabalho que conheceram seus maridos ou namorados através do site Par Perfeito versão 2005, antes da facilidade do “swipe left” dos aplicativos de smartphone. E foram elas que me ensinaram de verdade que, no amor como na guerra, a internet é uma arma como outra qualquer. Eis que muitos anos e relacionamentos frustrados depois, foi através da internet, mais especificamente do Tinder, que eu conheci o meu marido.
No meio da pandemia, é através da internet que temos as notícias mais atualizadas, que comparamos informações e escolhemos a que melhor nos serve. É a internet e são as redes sociais que nos divertem, nos conectam, nos informam, permitem que desabafemos uma raiva ou compartilhemos uma alegria quando estamos impedidos de sair de casa. As redes sociais são mais que nunca a esquina da padaria, a fila do banco. Durante os quase cem dias de confinamento em Barcelona, foi a internet que me manteve sã. Faço terapia por Facetime, aulas pelo Zoom. Pesquiso tudo que quero para a minha tese de doutorado viajando por infinitos sites. Recebo as informações mais atualizadas da universidade e posso contatar o meu orientador com apenas um botão. Eu nem sei aonde ele está, mas sei que está ali, naquela caixinha preta.
Foi por causa da internet que fiz milhares de receitas maravilhosas durante o confinamento. Foi por causa da internet que o meu marido colombiano hoje chama a Rita Lobo de “nuestra amiga”. Aprendi a fazer pão porque uma amiga, padeira profissional que mora em San Francisco, acompanhou pacientemente todo o processo por meio de DMs do Instagram e foi corrigindo os meus erros. Pensem nisso: são nove horas de diferença no fuso horário. Nove horas. Mas ainda assim tive uma aula incrível e, por causa dela, amanhã vou tomar café com pão assado na hora.
A internet nos entregou comida, papel para a impressora, batedeira, livros, flores, bolo de limão. Promoveu campanhas de apoio a doentes e a desamparados. Permitiu opções alternativas de sobrevivência para quem conseguiu se organizar e vender um hambúrguer, um livro, ou uma aula de guitarra online enquanto a vida lá fora estava congelada. Não nos enganemos: a internet sustentou muitas famílias por aí antes, durante e depois da pandemia.
É claro que ela tem problemas, muitos. É claro que tem muita coisa ruim neste mundo virtual, é claro que o Mark Zuckerberg é uma figura questionável, para dizer o mínimo. Mas não nos esqueçamos de que a internet é mais do que uma rede social. É mais do que uma pessoa. É um reflexo da sociedade mesma em que vivemos, ainda que às vezes amplificado. Amores e ódios, afetos e desafetos, lágrimas e risos, tudo isso não existe apenas online: existe no nosso dia a dia, na convivência entre vizinhos, familiares, amigos e companheiros de trabalho. E se é verdade que a lupa da telinha amplifica o que há de ruim, também é verdade que ela amplifica o que há de bom.
Não demonizemos a internet. Não demonizemos nenhuma parte dela. Tratemos a internet como tratamos o resto do mundo existente: somos parte integrante e indispensável dele e, portanto, cabe a nós fazer dele o melhor que ele pode ser.
Eu só posso ver os meus pais hoje porque a internet, os smartphones e o WhatsApp existem. E ainda que seja apenas, e ainda que seja somente por isso, tudo, tudo, tudo o mais vale a pena.
Finalizada a quarentena, no primeiro dia em que fomos até a Barceloneta passeando, conhecemos um rapaz Argentino. Paco estava sozinho na areia da praia, tocando violão. Nos sentamos perto dele e o Carlos, qual um menino se aproximando de outro que tem um brinquedo mais legal, foi de mansinho fazendo amizade.
Paco tem vinte e poucos anos. Havia chegado em Barcelona uma semana antes que fosse decretada a quarentena em toda a Espanha. A ideia era viver de tocar na rua, no metrô, como fazem muitos e muitos músicos em Barcelona. Vivem das moedas que os turistas deixam nos seus chapéus. O próprio Carlos já viveu assim, anos atrás.
Paco, claro, precarizado estava quando chegou, mais precarizado está agora. Anteontem fomos até a parte mais turística de Barcelona: fizemos a rota Plaza Catalunya – Las Ramblas – Mercado de la Boquería – Plaza Real – Catedral – El Borne. Já praticamente em julho, o lugar deveria estar fervendo de gente mais do que do calor sufocante que já faz. Mas não havia ninguém. A cidade está assustadoramente vazia. Aí estão as fotos que não me deixam mentir.
Plaza Real (foto minha)
Mas Paco está feliz. Virou aluno de guitarra do Carlos, hoje fez sua segunda aula aqui em casa. Nos contou que esta semana um amigo teve a guitarra apreendida pela polícia por tocar no horário errado. Ele próprio anda buscando lugares menos visados, fugindo da vigilância policial. Agora toca cerca de seis horas por dia no “Rincón de la Calma”, em Sitges. Ali a polícia não vai.
A próxima aula do Paco depende de se ele terá dinheiro para pagar. Paco não está preocupado. Nós também não. Esperaremos por ele.
Há outras maneiras de se viver.
Calle Ferran (foto minha)
Durante a quarentena, quando os bares e restaurantes ainda estavam fechados, encontramos com o dono do nosso bar preferido aqui do bairro. Entusiasmado com a reforma que aproveitou para fazer no bar, nos mostrou como estava ficando bonito, como ele criou mais espaço e rearranjou tudo para se adequar às normas das distâncias mínimas entre os clientes.
Depois nos contou que – tinha até vergonha de dizer – passadas as primeiras duas semanas da quarentena, quando ele viu que a ajuda do governo ia servir para segurar as pontas até poder abrir de novo, ele relaxou. Ele não tem empregados no bar, trabalham ele e a esposa, de domingo a domingo. Então, agora estava aproveitando a quarentena, tinha tempo para estar em casa com as duas filhas pequenas, tranquilo no sofá com a esposa, cozinhando, dormindo. Estava quase triste com a perspectiva da abertura. E deu uma risada alta e gostosa.
É claro que ele sente muito por tanto sofrimento e tanta morte, e que também tem medo do vírus, mas ao mesmo tempo aproveitou tudo que pôde do tempo que teve com a família, fez a reforma que queria no bar, e estava pronto pra recomeçar.
Plaza de la Catedral (foto minha)
A garçonete no Borne está trabalhando entre doze e treze horas por dia. O restaurante é enorme, mas na segunda-feira eu e o Carlos éramos os únicos clientes. Antes da pandemia, tinham uma equipe de dez garçons e cinco cozinheiros. Agora são cinco garçons e três cozinheiros. Sendo que nem todos os garçons estão trabalhando horário completo. Ela, ao contrário, está trabalhando demais.
Disse que há uns dois anos se mudou para um bairro fora de Barcelona, comprou uma casinha com a esposa, e pagam menos de hipoteca do que pagariam de aluguel dentro da cidade. Trabalha há três anos neste restaurante, e assim paga as contas. Está bastante preocupada porque sem os turistas ela não sabe como o restaurante vai se sustentar e, portanto, se ela vai ter emprego. “Olhem”, ela nos diz enquanto nos indica com os braços a rua vazia: “Não tem ninguém. Está assim a semana toda. Nem no sábado tem movimento suficiente. Sem os guiris não sei como vai ser”.
Nós também ficamos assustados. Muitos hotéis estão fechados. Ver hotéis fechados, com as portas trancadas, as luzes apagadas, as cadeiras e mesas empilhadas, lembra cenas de filmes de terror mesmo debaixo do sol escaldante de julho.
Teremos que encontrar novas maneiras de viver.
Talvez Paco tenha algo a nos ensinar.
Hotel 5 estrelas fechado na Via Laietana (foto minha)
Às vezes eu perco as palavras. O problema de perder as palavras é que sem elas eu não consigo pensar. Para ter ideias, preciso colocá-las em palavras bastante específicas, descritivas, diversas. Sem ideias, não consigo pensar de forma clara, e sem o pensamento claro não há escrita, pelo menos para mim.
Não é um delírio do tipo “olha ela toda escritorazinha ela”. É algo que me acontece de tempos em tempos, mesmo quando trabalhava como advogada, mesmo quando escrevia teses de mestrado, artigos. Não se trata necessariamente de beleza ou criatividade: é um problema mais básico. São as ideias mesmo, é o próprio pensamento que ou não aparece ou não faz sentido na ausência da palavra certa.
Uma vez, há muito tempo, eu li um artigo em algum lugar que explicava que o ser humano precisa ter um vocabulário mínimo de, digamos, cinquenta mil palavras (não sei, não me lembro mais), para poder ter pensamentos originais, compreender textos e explicações, para poder contextualizar. Enfim, para ter uma vida minimamente integrada e consciente. A ausência das palavras, então, seria a própria ausência de pensamento.
Nos últimos dias me sinto assim, vazia de palavras.
Minha mestra me disse que elas vão voltar porque as palavras, diferentemente do tempo, sempre voltam. Enquanto elas não voltam, eu fiz um Dry Martini e agora vou cozinhar feijão.