
A receita leva molho inglês. Para quem consegue pronunciar, seja por desvio genético ou treinamento em nível olímpico, chama-se molho Worcestershire. Para mim, é molho inglês.
A minha garrafinha já tinha acabado há um mês, mais ou menos. Pandemia e tal, adiei a reposição deste item essencial da minha cozinha. Na minha opinião, patê de atum sem molho inglês é um erro. Estamos há um mês trabalhando sem patê de atum nesta casa, e a situação já toma contornos dramáticos.
Hoje fiz desta busca a minha missão. Por algum motivo, achar molho inglês no Brasil é coisa de ir à padaria da esquina. Até o Dia % tem molho inglês, de várias marcas e preços diferentes. Aqui, não. Parece ser uma iguaria, nem todo supermercado vende, e a única marca disponível é a tradicional inglesa, Lea & Perrins.
Busquei no mercado do bairro, nos supermercados de rede da vizinhança, e nada. Shoyo tem aos montes, até vinagre de arroz você acha. Worcestershire? Não. Não é nem que seja um produto caro, pelo contrário, custa um euro e pouco. Busco na internet, acho que na última vez encontrei no El Corte Inglés (não, não vou fazer a piada do molho inglês no Corte Inglés. Vou deixar passar). E lá está a fotinho dele no site, preço camarada. Me preparo para o grande evento da semana: A Ida Ao Corte Inglés.
O problema desta loja de departamentos (pense numa mistura de Mesbla com Daslu) é que ela cria um buraco negro na sua capacidade de concentração. Eu tinha um único propósito: uma garrafinha de molho inglês. Entro na loja e imediatamente esqueço porque fui até lá e me parece absolutamente prioritário comprar um chapéu, um lenço de seda bordado, um broche de veludo, sei lá. É como um parque de diversões para uma criança de cinco anos: você quer comer algodão-doce, subir na montanha russa, rodar na xícara maluca e tomar coca-cola, tudo ao mesmo tempo. Como não dá, você (ou a sua criança interna de cinco anos) começa a chorar. Pesquisei preços de taças de vinho, de jogo de louça de porcelana, de lençóis de algodão egípcio com um milhão de fios. Meia-hora foi gasta namorando os “táper” fodidos, de vidro e fechamento hermético. Panelas, panelas e mais panelas. Acho que fiquei uns quinze minutos com uma Le Creuset na mão. Posso ter chorado neste momento. Jamais saberemos.
Como num torpor etílico, consegui achar a escada rolante que te leva ao supermercado da loja, este submundo do tráfico de comidas finas em embalagens luxuosas. Respirei fundo: “não olha aquela geladeira, passa batido pela parte do salmão defumado, desvia dos azeites, foco no molho inglês”. Resisti bravamente a tudo isso, e no final eles não tinham o molho. Não tinham. Perguntei pra um assistente, ele me ajudou a procurar, e nada. Me mandou tentar achar na parte gourmet (eles conseguem ter uma parte gourmet que é ainda mais gourmet que a normal). Respirei fundo, segurei as lágrimas, entrei. Focada: molho, molho, molho. A sensação é a de que só de respirar lá dentro já se foram cinquenta euros. Molho, molho, molho. E… nada. Também não tinham. A moça, simpática que só e com dó de mim, ainda buscou no computador. Foi o famoso “tem, mas tá em falta”.
Paguei meus pimentões cozidos e meu pacote de feijão, e tomei o caminho da roça. Já na saída, vejo um balcão lindo, todo arrumadinho com coisas coloridas. Eram máscaras. Máscaras de algodão puro, estampadas, laváveis, ajustáveis, pela bagatela de vinte euros cada uma.
Agarrei meu feijão e saí correndo.













