There’s a space between grief and gratitude where time stands still. We bought flowers today, just because they are beautiful. We try really hard to be less hopeless everyday. Sometimes we manage, but there are days, specially when it’s raining, when shit gets dark. When those times come, maybe flowers can help. We sent flowers to ourselves and the card said “hay que mantener la alegría, siempre!” ❤️
Troca de roupa, põe máscara, chave num bolso, álcool-gel no outro, vai pra rua, metros de distância, ninguém nem se olha, não toca em nada, põe a luva descartável, entra no mercado, pede tudo de longe, não ouve o balconista por causa da máscara, o balconista não te ouve por causa da máscara, o quê? o quê? o quê?, nos perguntamos constantemente, aprendemos a sorrir com os olhos, tira a luva descartável, passa álcool-gel na mão.
Volta pra casa, bolsa pesada, mais comida do que o normal pra evitar ter que sair de novo nos próximos dias, sobe a escada, entra em casa, bolsas no chão, corre pra lavar a mão, desinfeta as compras com papel e álcool, lava a mão de novo, lava o celular, limpa a maçaneta da porta, guarda a bolsa de compras, fica pensando se esqueceu de desinfetar alguma coisa, foda-se, se esqueci me contamino, não aguento mais lavar pacote de arroz, lava a mão de novo.
A vendinha do paquistanês vai sobrevivendo. Compramos ali o que podemos, porque senão o paquistanês e a família vão passar necessidade. E ele tem uns produtos bons. A vendinha do paquistanês (“paki” para os íntimos) é um feature século XX das grandes cidades europeias. E das pequenas também. Em geral abrem todos os dias, chova ou faça sol, dia santo ou feriado, e sempre ficam abertas até mais tarde. O paki vizinho acompanha a minha vida desde que cheguei aqui. E eu a dele. Perguntamos sobre as respectivas famílias, nos cumprimentamos na rua, ele vende cerveja e cava gelados. Vida longa à vendinha do paki. Lava a mão de novo.
Faz falta demais andar, meu deus do céu! Andar uns 5 quilômetros direto, andar até se perguntar internamente se “já está chegando? Quanto falta?”. Lava a mão de novo.
Quando tudo isso acabar eu vou comprar um monte de tupperware (aqui na Espanha se diz “táper”, e eu acho maravilhoso). Cheguei aqui tem quase 3 anos e desde então vou improvisando com estes potes de plástico frouxo que embalam comida pronta e fruta picada no mercado. Porque quando cheguei aqui, a ideia era ficar um ano. Já se vão três, já até casei, e estes táper tosco. Não mais! Revi todas as minhas prioridades de vida e cheguei à conclusão de que a única atitude sensata a ser tomada assim que essa pandemia acabar, e no caso de eu sobreviver, é comprar uma coleção de táper fodida. Vou comprar até de vidro, vocês vão ver só. Lava a mão de novo.
Uma amiga vai de carro no Carrefour amanhã e se ofereceu pra comprar algo para nós. Nosso pedido? 4 garrafas de vinho, 1 de tequila, limão, sal, e açúcar mascavo. Ganha um táper fodido quem acertar o resultado final desta compra. Lava a mão de novo.
Morre gente. Morre gente conhecida e desconhecida. Morrem números, morrem estatísticas, morrem gráficos, pessoas morrem em linhas logarítmicas (eu só reaprendi outro dia o que eram linhas logarítmicas).
Hoje morreu um artista. Sempre achei estranho chorar por morte de artistas (embora, sim, tenha ficado muito triste e chocada com a morte de alguns). Mas morrer Moraes Moreira foi ultrapassar um limite.
Até onde sabemos esta morte não cai na conta do vírus maldito. Mas ainda assim, não precisamos desta morte. Não neste momento. Não quando tantos brasileiros espalhados pelo mundo se agarram à nossa música e aos nossos artistas como última âncora para manter nossa identidade e nosso orgulho.
As pessoas em geral acham que quem vai embora do Brasil quer desistir de ser brasileiro, quer assinar outro nome e fotografar outra origem. Bobagem. A gente só acha legal outro lugar, outra paisagem, outra comida, outro idioma. A gente só é curioso e aventureiro. Em alguns casos, só queremos ganhar um salário que nos sustente e que nos permita mandar um pouco pra casa. Em outros casos, a pessoa só quer distância mesmo. E tem gente que se apaixona por alguém de outra cor, origem, país, cidade, bairro, fazer o que? É normal.
Imigrante é só gente que quer tentar ser feliz. Qualquer análise minimente simplista disso está equivocada. Acredite em mim.
Em geral, nós imigrantes explicamos em detalhes como é o carnaval no Brasil, os tipos de música de cada região, explicamos qual é o nosso preferido e por quê. Brasileiros são capazes de explicar bossa nova, samba, chorinho e rock Brasil. Explicamos até Djavan, que é diferente de tudo, mas amado por todos. Pelo menos tentamos explicar. Ninguém entende, claro. Nem mesmo os músicos profissionais. É preciso nascer e crescer neste universo muito brasileiro pra entender que Moraes Moreira não toca frevo nem jongo nem samba, mas que é um samba-pop-rock-frevo e que, claro, todo brasileiro entende. E que faz sentido misturar tudo isso porque o corpo sente bonito e o ouvido dança.
Quando morre Moraes Moreira parece que morre a nossa capacidade de apontar e dizer: “Olha lá! No Brasil tem esse cara e ele faz diferente de todo mundo e é original e, sinceramente, é bem melhor! Aprende lá!”.
Parece que perdemos um pouco da nossa originalidade, criatividade, liberdade, alegria. E em tempos tão, tão, tão, tão tristes, tão pouco originais, tão confinados… parece uma última punição divina que a prova viva da nossa criatividade, talento e beleza, seja assim tão singelamente arrancada de nós.
Descanse em paz, Moraes Moreira. Seu trabalho aqui foi lindamente cumprido. Honrar a sua herança é uma das nossas enormes missões.
A morte chega. E é mais triste que o normal. Não há visitas, choros, velórios, abraços, enterros, missas, cerimônias. Não há histórias a serem compartilhadas, não há o conforto em dizer “sinto muito” pessoalmente. Não posso levar um café e um abraço aos enlutados, mesmo que eles sejam meus vizinhos do andar de baixo. E o luto deles é solitário, distante, irreconhecível. Arranca-se o nosso último e marcante traço civilizatório: não enterramos mais os nossos mortos.
Com a mudança das recomendações do governo, fiz uma máscara caseira para usarmos nas poucas vezes em que saímos. Neste universo de 70 metros quadrados e só um armário, as opções pareciam poucas. Mas de repente, eram muitas. Tanta camiseta e roupa e lenço e echarpe e coisas sem usar. É tudo pano. Cortei uma echarpe rosa bonita pra fazer as máscaras. O Carlos me perguntou se eu tinha certeza que queria cortá-la. Eu disse a ele que se essa echarpe não serve pra fazer uma máscara protetora, então ela não serve para nada. Medi com cuidado, cortei pedaços quadrados, fiz duas máscaras e sobrou echarpe para umas outras 4. Foi um bom uso deste pano.
Costumamos dizer que “vamos à caça” a cada vez que um de nós sai para comprar comida. Toda a preparação de roupa, máscaras, álcool gel, lista de compras, chaves, tudo à mão, tudo bem preparado para o caso de um vírus sair correndo na rua atrás de você e te atacar! Parece mesmo que vamos à caça.
Na rua, os comportamentos já estão totalmente adaptados. Ninguém mais anda conscientemente na minha direção num eterno pega-pega, esperando que eu desvie. O desvio pessoal vem de longe, é quase um pas de deux involuntário traçando arcos gigantes nas calçadas, homens desviando o máximo possível de mim e deixando o espaço livre. Eu não devia dizer isso, mas às vezes a pandemia é uma benção.
Compro comida, volto pra casa. A vida foi reduzida a sair para buscar comida e se proteger de doenças e predadores. Ou doenças predadoras. É uma volta ao mundo das cavernas. Toda a complexidade e sofisticação do mundo é eliminada num piscar de olhos. Tudo o que importa é ter o que comer, um lugar coberto para dormir, e alguma proteção contra a morte. Milhões de anos e, vejam só, afinal nós não mudamos muito. Continuamos saindo para caçar e nos protegendo dos predadores naturais.
Eu sei que está todo mundo preocupado com o Zoom. Mas olha, o Facebook vem roubando, e armazenando, e analisando e vendendo os seus dados há muitos anos, e continua fazendo isso agora enquanto você e eu estamos aqui. O Google também. E a Apple. E a Amazon. E os governos. O Snowden avisou em 2013. De lá pra cá, só o que mudou é que eles fazem mais e melhor. Então olha, acho bem justo você se preocupar com o Zoom. Mas se preocupe com os outros também. A nossa privacidade vem sendo atacada todos os dias por todos os lados. E isso só irá piorar depois da pandemia.
A primavera aqui chegou com uma força catalã: céu muito azul, muito sol, temperatura amena de dia, um pouquinho de frio à noite. É a minha estação favorita, sem dúvida. Nesta época, em tempos mais normais, pouco a pouco sentimos a cidade mudando: as pessoas estão ligeiramente mais alegres e sorridentes, antecipando os planos do verão. As conversas no ônibus têm mais risadas e sobem um pouquinho de tom. As roupas vão ficando mais leves, assim como os problemas. Este ano assisto à nova temporada da janela, e tudo tem um sabor agridoce.
O meu ap tem uma pequena varandinha, de 1m x 2m, mas que nós aproveitamos como se fosse todo um quintal com mangueiras, abacateiros e jardins. Abrimos de manhã, tomamos vinho ali à tarde, saímos para ver o silêncio à noite.
As ambulâncias continuam passando. Paisagem sonora da tristeza.
A vizinha da frente vive com a varandinha dela fechada. Às vezes eu acho que a culpa é nossa, porque como nós sempre estamos com a nossa varanda aberta e ocupada, ela se sente na obrigação de fechar a dela, para preservar a sua privacidade. Ou para preservar a nossa, sendo ela mais generosa que nós. Enfim. O fato é que esta varanda sempre fechada dá asas à nossa imaginação. De vampiros modernos a psicopatas que enterraram a avó morta na parede, a cada dia temos uma teoria nova. Todas bem mórbidas, claro. Porque se eu posso inventar a vida do outro, ela será um filme surrealista com toques de Stephen King.
Mas, espera. Pandemia. Quarentena. Máscaras. Medo. Morte. A nossa existência é um filme surrealista com toques de Stephen King.
Segunda-feira, 30 de março, a minha agenda me lembrou: íamos a Cadaqués. A viagem estava programada desde janeiro. Íamos conhecer a cidade, ver a arte de Dalí ali do lado, comer frutos do mar, beber vinho. Celebrar o começo da primavera e comemorar um ano de quando assinamos os papéis no cartório. Me deu uma saudade imensa da vida normal, do plano da viagem, da viagem em si, que nem foi feita.
Mas olha que engraçado: enquanto pensava nisso, eu perdi a palavra e descrevi para o Carlos o sentimento, “eu fico pensando nas festas do Monumental Club, em como estávamos animados para ir a Cadaqués, nas jam sessions do Figari, me deu uma dor aqui sabe, uma tristeza, um aperto no peito”. E o Carlos, que não fala português, me apresenta a ela: “si amor, es ‘saudade’”. Ha!
O tempo se tornou uma massa disforme. Sou incapaz de dizer se os dias são longos ou curtos, se o tempo passa rápido ou devagar. Às vezes sim, às vezes não. Mas frequentemente o tempo não é nada, é simplesmente um algo indefinido, um espaço que se faz e se desfaz conforme seja ou não ocupado. Sempre tive uma relação quase material, física, com o tempo: uma vida pautada por agendas, horários, cronômetros. Sempre fui extremamente pontual, demais até. Chegava pelo menos cinco minutos antes a qualquer compromisso. Depois reclamava da demora dos outros… Sim, eu sei. Mas agora nada disso faz sentido, porque as horas no relógio perderam significado.
Olhamos pela janela, faz sol ou chuva, dia ou noite. E daí? Dormimos quando temos sono, comemos quando temos fome, vamos bailando nesta música natural de um corpo confinado a um espaço reduzido, porém prazeroso. Sabemos que os dias passam pela oscilação entre luz e escuridão e pela contagem diária dos números de mortos. Um dia pode ter dez ou trinta e duas horas, não sabemos.
Me dei conta de que escrevi sobre mim no passado, eu “era” pontual. Outra mudança temporal significativa. Que indivíduos seremos quando tudo isso passar?
A doença se aproxima aos poucos, e então tudo de uma vez. Quando alguém muito próximo adoece, tudo muda. De novo. E é preciso quase sair do próprio corpo para não ser dominado pela cegueira do egoísmo. Isso me lembra um dos meus textos favoritos, chamado “This is Water” do David Foster Wallace. Ele diz que o modo default do humano é considerar-se o centro do mundo, e que isso é natural. Afinal, só posso ver, sentir, perceber o mundo a partir de mim mesma e, portanto, toda a experiência do mundo só existe a partir da minha experiência. Se quisermos nos livrar deste redemoinho de desespero, é preciso fazer um esforço consciente para sair do modo default, e criar na nossa própria cabeça todas as possíveis experiências do outro. Dar à experiência do outro a mesma importância, talvez até mais, que damos à nossa. Ele está certo, mas é difícil demais.
Já não recebo tantos memes ou vídeos engraçados, nem explicações sobre o coronavírus, ou sobre métodos de proteção. Tudo isso já parece um passado distante e quase de mau gosto. Já se começa a sentir um peso sobre a cidade, o silêncio tem outra cor. Já não há mais happy hour virtuais, ou lives, ou concertos dos amigos. Tudo tomou outro significado. O Carlos diz que não mais parece adequado, e ele está certo.
No grupo dos doutorandos no WhatsApp nos consolamos uns aos outros por não conseguirmos nos concentrar e produzir nada. Costumo dizer que passo a metade do tempo lendo diferentes artigos sobre a pandemia ou olhando aleatoriamente para o vazio. Não é exatamente assim, mas é assim mesmo. Difícil definir.
Há dias venho pensando nesta obsessão de produzir durante a quarentena. Produzir o quê, exatamente? E, principalmente, para quê? Um mundo inteiro se desafazendo nas costuras, a incerteza rodando os cantos higienizados da casa, gente morrendo sozinha, e nós em quarentena querendo “produzir”. O próprio conceito de “produção” me parece agora alheio e distante. Pois se esse próprio conceito, essa ideia quase transcendente e impermeável, imortal e onipresente, foi exatamente o que nos trouxe aqui, à pandemia e à quarentena. Queremos mesmo seguir nesta ideia? Produzir sem parar, para trocar esta produção por coisas, coisas que virão de longe, atravessarão fronteiras, trocarão de mãos inúmeras vezes, para terminar dormindo num armário fechado que ninguém mais abre, no fundo de uma gaveta que só será aberta no dia da próxima mudança, pra uma casa maior, com mais armários e mais gavetas, para acumularmos mais coisas que virão de ainda mais longe, para terminarem ainda mais perdidas. Não sei. Só tenho dúvidas e incertezas.
Mantemos uma rotina de ver Netflix e tomar chá antes de dormir. A hora em que isso acontece é que já não importa mais.
O Word ainda sublinha em vermelho a palavra coronavírus, apontando um erro. Não podia concordar mais.
Cuidado com os aproveitadores online. Tem muito phishing e malware rolando por aí. Não abra links nem baixe aplicativos de desconhecidos. Nem de conhecidos. Enfim, como regra geral, não abra links, não baixe aplicativos. Hoje recebi um phishing alegando ser da “Netflix”. Vai vendo…
Estamos vendo Homeland. Eu pela segunda vez. Carlos pela primeira. Eu sei tudo que vai acontecer, mas estou adorando fingir para mim mesma que não sei nada, e me surpreender com os giros da história. Que série boa. Queria ter o cabelo da Carrie.
Manu Chao compôs uma música nova para a pandemia. Como tudo que Manu Chao faz, é maravilhosa. “Calavera no llora, serenata de amor. Calavera no llora, no tiene corazón”.
Essa ideia pode parecer estranha agora, mas tudo isso vai passar.
“El hombre es un animal de costumbres”, eu disse outro dia para uma senhora na bodega aqui do lado. “También las ratas”, ela me respondeu. Rimos juntas. Uma piada amarga feita a quatro mãos entre duas desconhecidas. Sobreviveremos, eu não tenho dúvidas. Nós y las ratas.
Ficar em casa não me incomoda. Mas a imensa tristeza de tudo, os doentes sozinhos nas camas dos hospitais, as famílias que não podem enterrar os seus mortos, o medo que se pode tocar nas ruas, nas poucas vezes em que saímos para comprar comida.
O som das ambulâncias. Agora as ouvimos o tempo todo. Às vezes é o meu marido quem repara, às vezes sou eu. Mas além dos pássaros, o único som que vem das ruas é o das sirenes.
Eu choro uma vez por semana. Parece que se tornou um padrão. Eu tenho dias bons, mas então vem um dia que me atropela de tristeza e medo, e o sentimento de incerteza é insuportável. E eu choro.
Estes dias eu tenho lido muito sobre a pandemia. Sinto como se eu quisesse fazer parte da História, viver algo que as próximas gerações apenas lerão em livros, como nós lemos sobre a peste negra ou a Revolução Francesa. Eu quero sentir, saber, saber o que está acontecendo aqui e em todas as partes. Ser capaz de dizer “eu estava lá, e eu vi tudo” para os netos que eu não terei.
Mas uma coisa me choca mais que tudo, em tudo que tenho lido. Em todos os filósofos, acadêmicos, todos os pensadores relevantes do nosso tempo que estão escrevendo sobre o mundo durante a pandemia, há uma coisa que me incomoda e surpreende: todos estão pensando em soluções, reações e possibilidades pelas lentes do mundo que existia. Um mundo pré-pandemia. Isto não vai funcionar. O mundo pós-pandemia será completamente novo, totalmente diferente. E é claro que ainda não sabemos como será, mas pensar na reconstrução mirando numa réplica do passado não me parece razoável. Precisamos pensar em sociedade, economia, relações totalmente diferentes. Tudo vai mudar, porque tudo precisa mudar. E porque é tempo de mudar. Se nós não conseguirmos mudar radicalmente o estado das coisas depois deste reboot mental e físico mundial, nós jamais, jamais, jamais mudaremos nada.
Eu, pelo menos, estou mudando. Quando tudo isso começou, eu pensava que sabia muito. Eu pensava que sabia como as economias funcionavam, e governos e leis, e o que é o melhor para todos. A pandemia me provou errada em quase tudo. Não é fácil, na verdade é bastante perturbador. Mas é necessário, se quisermos construir algo novo e fresco. Agora é a hora! Já sofremos o suficiente, gente demais já morreu. Nós não devemos deixar esta oportunidade escorrer pelos nossos dedos. Vamos jogar tudo que sabíamos (ou pensávamos que sabíamos) pela janela, e vamos começar de novo.
Eu li um artigo do Thomas Friedman no outro dia onde ele sugere que todos deveríamos seguir trabalhando, pelo menos os sãos e os que não se encontram em grupo de risco, para salvar a economia. Eu sempre gostei do Friedman. Mas agora me parece estranho, para dizer o mínimo, que em sendo o propósito final de um sistema econômico saudável que todas as pessoas possam viver de maneira decente e feliz, se proponha sacrificar vidas para salvar a economia. Então quem trabalha para quem? Por que eu deveria sacrificar a minha vida para salvar um sistema econômico que claramente não funciona? Porque que se a única solução para manter este sistema vivo é matar pessoas, eu arrisco dizer que este não é um sistema econômico do qual eu queira fazer parte. Eu acho que o Friedman, com todo seu conhecimento e inteligência e prêmio Nobel, nos serviria melhor se tentasse encontrar uma solução para um sistema econômico que trabalhe para as pessoas, e não o contrário. E não. Eu não estou falando sobre socialismo ou comunismo. Estes também não funcionaram, pessoas também tiveram que morrer para alimentar o sistema, do mesmo jeito.
Nós estamos nisso juntos, mas ainda assim… quando o sapato aperta só o que eu ouço das pessoas é como isso afeta a elas, o que vai acontecer com elas, os problemas delas, as suas dificuldades, as suas opiniões. Se liga, galera! Isto é uma tragédia para todo mundo, é uma merda de uma pandemia global! Todo mundo vai perder! Alguns perderão suas vidas, outros, dinheiro, outros seus entes queridos, outros a saúde. É preciso entender de uma vez por todas: você não sairá ileso desta. Trabalhar junto e colaborar é a única maneira de minimizar o dano, dadas as circunstâncias. Você não é o único se sentindo doente, ou com raiva, ou ansioso, ou preocupado. Você não é o único com um ser querido no hospital. Você não é o único que perdeu suas economias, ou o seu negócio, ou foi demitido. Se você tem uma casa para morar e se isolar, seja grato. Se você tem água corrente limpa para lavar as mãos, seja grato. Se você pode comprar comida e pagar o seu aluguel, seja grato. Eu sei que não é fácil viver neste momento. Mas eu te garanto, alguém está pior que você.
Quando alguém que você ama morrer num hospital e você não puder fazer o enterro ou nem mesmo uma missa em seu nome, a economia será (ou deveria ser) a sua última preocupação.
Seremos todos velhos um dia. Não abra mão dos idosos. Sacrificar as suas vidas porque eles não trabalham não é somente um erro. É asqueroso e desumano.
Uma vez que isso tudo termine, nós precisaremos colaborar mais do que nunca. Vai haver muito desemprego e muita pobreza, mas se nós tivermos feito nosso trabalho direitinho durante a quarentena, nós vamos ter aprendido que se todos compartilharmos um pouco, e aceitarmos perder um pouco, todos teremos um pouco.
A música preenche os nossos dias e as nossas almas. Ouça mais música, cante.
Se você pode rir com o seu parceiro durante a quarentena, sua relação vai durar. Se não, repense. A vida é frágil e, às vezes, muito curta.
Tudo que os governos nos disseram antes sobre não ter dinheiro para uma renda básica universal e saúde pública era mentira. Eles encontram dinheiro quando precisam. Vamos manter a pressão quando tudo isso acabar.
Sim, a sua privacidade ainda importa, e deve importar. Mas sim, nós iremos viver em um mundo de vigilância total e permanente depois desta catástrofe. E eu não sei o que pensar sobre isso.
Eu acho que eu quero viver uma vida mais simples. Ainda mais simples que agora. Eu me dei conta de que estou confortável no isolamento em um apartamento muito pequeno com o meu marido. Eu posso viver com menos e ser feliz com menos. Eu quero menos.
Se afaste das pessoas tóxicas. Porque se o coronavírus não te contaminar, elas irão.
Obrigada, humanos, pela internet. Tudo isso seria muito difícil sem ela.
Deixem os adolescentes se entediarem. Não tem nada errado com o tédio. Estar entediado é bom. Estamos no meio de uma pandemia global, é OK que eles não tenham coisas para fazer o.tempo.todo. E sim, as crianças menores irão passar mais tempo na frente de alguma tela. E daí? Todo mundo está fazendo algo que não deveria, como por exemplo, comendo Oreos o dia inteiro. Deixem as crianças em paz.
Giri / Haji é uma série super cool da Netflix, acho que vocês deviam ver.
O Príncipe Charles deu positivo pro coronavírus. O Boris Johnson também. Uma amiga minha sugeriu que isso tudo não passa de uma conspiração da Rainha Elizabeth para se livrar dos dois e colocar o William. Será? Acho que jamais saberemos….
Staying home doesn’t bother me. It is the overwhelming sadness of everything, the sick being alone at hospital beds, the families not being able to bury their deceased, the fear you can touch on the streets, on the few times you go out to buy food.
The sound of the ambulances. We now hear them all of the time. My husband points them out sometimes, other times I do. Apart from the birds, sirens are the only other sound coming from the streets.
I cry once a week. It seems to have become a pattern. I have very good days, but then one day comes that overwhelms me with sadness and fear, and the feeling of uncertainty is just too much. Then, I cry.
I have read a lot these days about the pandemic. I feel like I want to be a part of this History, living something that the next generations will only read in books, like we read about the plague or the French Revolution. I want to feel it, to know it, to know what is going on here and everywhere. To be able to say “I was there, and I saw it” to the grandchildren I will never have.
But one thing baffles me the most, on all I have read. On all the philosophers, academics, all the relevant thinkers of our time that are writing about the world in this pandemia, there is this thing that bothers me: they are all thinking of solutions, reactions and possibilities through the lenses of the world that was. A world pre-pandemia. This will not work. The world post-pandemia will be a completely new one, totally different. We don’t know what it is going to be but thinking about reconstructing looking back doesn’t seem to me to be the most reasonable way. We must think of a completely different society, economy, relationships. Everything will change, because it needs to change. And because it is time for change. If we can’t radically change things after this physical and mental worldwide reboot, we will never, ever, ever change anything.
I, for one, am changing. When all this started, I thought I knew a lot. I thought I knew about how economies work, and governments and laws and what is best for people. The pandemia probably proved me wrong in every single way. It is not easy, and in fact it is very disturbing. But it is nonetheless necessary, if we want to build something new and fresh. Now is the time! There has been enough suffering, enough death. We should not let this opportunity slip through our fingers. Let’s toss all we knew (or thought we knew) out the window, and let’s start again.
I read an article by Thomas Friedman the other day where he suggests we should continue to work, at least those who are able to or less at risk, in order to save the economy. I’ve always liked Friedman. But now it strikes me as odd that, when the ultimate purpose of a healthy economy is to allow people to live decently and happily, we are now proposing sacrificing their lives to save the economy. Who works for whom? Why should I sacrifice my life to an economic system who clearly is not working – if this system’s only solution is to kill people to keep itself alive, I dare say it is not an economic system I want to be a part of. I think Friedman, with all his knowledge and intelligence and Nobel prize, would serve us best if he tried to find a solution for an economic system that worked for the people, and not the other way around. And no. I am not saying socialism or communism. Those did not work either, people got killed to feed the system, just the same.
We’re all in this together, but still… when push comes to shove, all we listen from people who are close to us is how it affects them, what will happen to them, their problems, their difficulties, their opinion. Get over yourselves, people. This is a tragedy for everyone, it is a fucking global pandemic! Everyone will lose! Some will lose their lives, some their money, some their loved ones, some their long-term health. Face it once and for all: you will not get out of it unscathed. Working together and collaborating is the only way to minimize the damage, given the circumstances. Again, get over yourself! You’re not the only one feeling sick, or angry, or anxious, or worried. You’re not the only one with a loved one in the hospital. You’re not the only one who lost your savings, lost your business, got fired. If you have a house to live in and isolate, be effing grateful. If you have running water to wash your hands, be effing grateful. If you can buy food and pay rent, be effing grateful. It is not easy to live through this, I know. But I assure you, someone is having it worse.
Once one of your loved ones die alone in a hospital and you can’t even bury him/her or have a mass in his/her honor, the economy will be (or should be) the least of your worries.
You will be old one day. Don’t dismiss the elderly. Sacrificing their lives because they don’t work is not only a mistake. It is disgusting and makes you less of a human being.
Once this is all over, we will need to collaborate, more than ever. There will be a lot of unemployment and poverty, but if we did our homework right during the quarantine, we will have learned that if we all share a little, and accept losing a little, we will all have a little.
Music fills our days and souls. Listen to more music, sing.
If you can laugh with your partner during quarantine, your relationship will last. If you can’t, rethink it. Life is fragile, and sometimes very short.
All that our governments said before about not having money for universal basic income or public health care was a lie. They can come up with the money when it is needed. Let’s keep the pressure once this is over.
Yes, your privacy still matters, and should matter. But yes, we will live in a world of strong and ubiquitous surveillance after all this is said and done. And I don’t know what to think of it.
I think I will want to live a simpler life. Even simpler than now. I realized I am comfortable quarantining in a tiny apartment with my husband. I can live with less and be happy with less. I want less.
Stay away from toxic people. Because if coronavirus doesn’t contaminate you, they will.
Thank you, humans, for the internet. It would be something else without it.
Let teenagers get bored. There’s nothing wrong with being bored. Getting bored is good for you. This is an effing global pandemic, it is ok if they don’t have activities all.of.the.time. And yes, little children will spend more time in front of screens. So what? Everybody is doing something they shouldn’t, like snacking all day long on Oreos. Leave them alone.
Giri / Haji is a super cool series on Netflix, I thought you should know.
Prince Charles tested positive. A friend suggested this is a conspiracy by the Queen to put William in charge. Is it? We’ll never know…
Há algum tempo, alguns anos, eu venho desenvolvendo uma técnica para lidar com o fato inexorável de que nós estamos sendo hackeados todo o tempo. E eu digo nós como seres humanos, indivíduos, nossas mentes e pensamentos e desejos e medos. Nao estou falando dos nossos telefones ou contas de Facebook, embora o hack comece por aí. O “Great Hack” não é de mensagens, fotos, posts: é de pensamentos.
A minha técnica é simples, e consiste em partir sempre de algumas premissas básicas:
Não há nenhuma hipótese de privacidade online para um cidadão comum. A não ser que você seja um profissional de tecnologia especializado em cybersecurity (ou seja, um hacker, seja white or black hat, empregado de governos, corporações, ou independente), a não ser que você opere técnica e digitalmente no mesmo nível de um Snowden, tudo o que você faz online – e às vezes até offline – é visto, ou pelo menos visível. E se é visível, você é um alvo.
Desconfie de tudo que você vê em redes sociais. Absolutamente tudo e todos. Sempre e o tempo todo.
Mantenha sempre em mente que você está, sim, sendo manipulado. Que você é, sim, altamente manipulável, tão manipulável quanto o cara que você olha e diz: “Alá! Este povo é muito manipulável”. E que até quando você pensa racionalmente “Cyntia, cuidado: você está sendo manipulada o tempo inteiro e inclusive agora” isso também pode ser manipulação.
Parece paranóia, mas nao é. O documentário “The Great Hack” da Netflix deixa isso bem claro. Eu acompanhei tanto quanto me foi possível – e tanto quanto eu tive vontade – o tema da Cambridge Analytica na época do auge. Quase nada do que foi dito no documentário era novidade para mim. Mas o fato de tudo isso ter sido compilado em uma única história fluida, com entrevistas, vídeos e áudios das pessoas envolvidas, me causou um choque. Havia lido sobre a luta do David Carroll em um artigo aqui, outro ali, li os artigos da Carole ou no Guardian ou replicados em outros meios, li um “resumão” bastante completo da história na Wired. Vi partes dos depoimentos do Chris Wiley e do Zuckerberg na TV quando ocorreram. Mas tudo isso, se confirmava pouco a pouco as minhas premissas acima, formou uma massa disforme de informações desconexas, e minha mente funciona melhor com uma ordem sequencial, uma linha do tempo clara, um “infográfico”, por assim dizer. E o documentário faz isso, é um grande, vivo infográfico detalhado sobre manipulação, mentiras, propaganda e auto-engano.
O que eu tiro disso nao é somente a confirmação do que já sabíamos, uma imagem clara de pessoas, governos e corporações que utilizam information warfare de maneira inescrupulosa em benefício próprio. O que eu tiro disso é que a única maneira de tentar minimizar os efeitos desta warfare é….. não sabemos. Ninguém sabe. Não sei se há uma solução, ou pelo menos uma única solução definitiva, que possa controlar ou limitar os danos no futuro.
É claro que se pode estabelecer que dados pessoais são direitos humanos, e eu acho esta uma luta válida. O ponto é: Estados e corporações, às vezes em conjunto e às vezes individualmente, foram, são e continuarão sendo os maiores violadores de direitos humanos. E as eventuais penalidades são inócuas. Não chegam nem a arranhar a superfície. US$5 bilhões em multa para o Facebook ou Google? Parece bastante né? Não se imaginarmos que este próprio governo que recebe esta multa eventualmente utiliza o dinheiro para mais data mining, para mais propaganda…e que eventualmente voltará ao mesmo Facebook ou ao mesmo Google. E como punir os Estados? Qual o resultado prático dos vazamentos do Snowden? Sim, nós estamos agora informados de que o Estado americano espiona a todos. E? O que aconteceu? Alguns discursos frouxos do Obama, uma acusação de alta-traição, um cidadão americano exilado, nós todos continuando nos nossos smartphones e Facebooks e Instagram. Quem de nós se atreveria a dizer com tranquilidade: depois do caso Snowden os EUA efetivamente pararam de nos espionar indiscriminadamente. De maneira que não é uma hipótese desvairada, nao é uma teoria da conspiração. É simplesmente um sistema que se retroalimenta indefinidamente. Me chocou bastante no documentário, e isto sim para mim foi novidade, o fato de que até movimentos como o Black Lives Matter foram sujeitos a propaganda manipulada.
Talvez o consolo seja pensar que máquinas de propaganda, e propaganda warfare, não são novidade na história da Humanidade. E que entre idas e vindas, entre desastres absolutos e épocas de prosperidade, a Humanidade continua. Até quando, não sabemos. Se a manipulação de hoje é mais daninha e mais perigosa que as do passado, pelo tamanho da sua eficácia, pela quantidade de informação disponível, pela rapidez em que se espalha? Eu creio que sim. Mas é também possível que, pouco a pouco, descubramos uma ou várias maneiras de combatê-la também de maneira mais eficaz e rápida.
De momento, creio que nosso dever é estarmos sempre atentos e sempre dispostos a assumir individualmente que fomos, somos e continuaremos sendo manipulados. Inclusive, e principalmente, por aquilo que parece ter ótimas intenções. Que parece querer nos proteger de algo. Que parece lutar fortemente ao nosso lado, seja qual for a nossa posição.
Afinal: quem nunca se emocionou com propaganda de fim de ano do Banco Itaú que atire a primeira pedra.
A drosophila melanogaster é a mosquinha da fruta. Se alimenta das frutas já muito maduras, e por isso muito doces.
O que me surpreende é que esta mosquinha seja tao parecida com os humanos, a ponto de ser um dos animais mais utilizados em pesquisas científicas, podendo facilmente nos substituir. Ando pensando bastante na substituição dos humanos. Nao só pela mosquinha, mas também por cyborgs, robôs, máquinas. Claro, a minha tese de doutorado passa tangencialmente por este assunto, mas não é só por isso.
Cada vez mais tenho a impressao de que a grande praga da Terra é a humanidade. Nao foram as 7 pragas do Egito, nem a Peste Negra. Humanos saudáveis que vivem até os 90 anos e se reproduzem: esta é a grande catástrofe. Mesmo que fôssemos capazes de reciclar todo o nosso lixo, de viver uma vida com mínimo carbon footprint; mesmo que fôssemos essencialmente veganos, e plantássemos nossa própria comida, somos 7 bilhões de seres. Quase 8. Simplesmente não há espaço para todos, não há água potável, não há terra suficiente para tanto plantio, não há. Nao há como esperar que tanta gente viva tanto tempo sem que se afete, fatal e irremediavelmente, o meio-ambiente que nos cerca: como mínimo, não sobreviveríamos sem remédios e eletricidade. Pelo menos não como sobrevivemos hoje: sem isso, voltaríamos à expectativa de vida da Idade Média, morreríamos aos 30 anos.
Pensando bem, talvez seja este instinto de sobrevivência coletivo da espécie que tenha levado cada vez mais gente a questionar a ciência, a eficácia das vacinas e de tratamentos médicos, ou a forma da terra. Talvez, de modo inconsciente, este seja o Darwin Awards que nos salvará a todos: trará de volta doenças já erradicadas, que nos eliminarão aos milhões, reduzindo o efeito da praga Humanidade sobre a Terra, paradoxalmente permitindo a sua sobrevivência.
Talvez os anti-vaxxers venham em socorro da humanidade. Quem diria!