
Odeio correr. Detesto. Acho correr por esporte, ou seja, sem um propósito digno – como pegar um ônibus ou impedir a criança de ir pro meio da rua – uma coisa sem sentido, um retrato claro da insensatez humana. Porém, a idade (e o peso que com ela vem sendo adicionado) requer medidas drásticas para manutenção da saúde e, infelizmente, parece que correr realmente é saudável. Então há pelo menos uns cinco anos venho tentando ensaiar umas corridinhas porque, né, no momento não tenho planos de morrer.
Além de detestar correr, detesto a “cultura da corrida”. Se tem uma coisa que precisa acabar é a “cultura da corrida”. Quando alguém como eu tenta sair pra correr, geralmente dá de cara com uma gente chique, magra, que corre de maneira elegante, que corre muito mas não sua, não bufa, o cabelo não sai do lugar, o rosto não fica vermelho-pimentão, as roupas combinam. Uma gente que corre de coluna ereta, barriga pra dentro e cabeça erguida. E esta gente corre de verdade, sabe correr, corre uns quilômetros enormes (não sei vocês, mas os meus quilômetros têm no máximo uns 200 metros). E isso me desanima ainda mais a correr, por motivos de vergonha. Não tenho condição nenhuma de me unir a esta tribo, não tenho nem roupa pra isso, muito menos postura.
Eis que vim morar em Barcelona e tudo melhorou. Não que Barcelona não tenha TCC (Tribo da Corrida Chique). Tem, mas a galera TCC em geral fica lá na praia da Barceloneta, são uma minoria e ninguém gosta deles. E como eu não moro na Barceloneta, mas em um bairro pouco turístico composto de 70% velhinhos e 25% famílias com crianças, sobram uns 5% de gente normal como eu que se vê obrigada a fazer algum exercício físico com o único propósito de driblar a morte por alguns escassos anos.
É gente que corre que nem eu: de má vontade, sofrendo, querendo parar no próximo passo. Gente que sua muito, que corre olhando pro chão pra ver se sofre menos, os braços em uns movimentos descoordenados e aleatórios. O meu rosto, por exemplo, fica tão vermelho que quando noto as pessoas me olhando fixamente já sei que tenho que parar (já tive gente vindo me perguntar se eu estava bem, de tão vermelha que fico). Nós, os 5% do bairro, corremos de tênis velho, meias desbeiçadas, short Adidas circa 1980, camiseta com manchas não-identificáveis e alguns furinhos, ignorando todas as regras básicas da combinação de cores.
Corremos com cara de sofrimento e olhar triste, respirando pesadamente, rezando pro sinal abrir pros carros quando estivermos pra atravessar a rua. Corremos muito devagar, devagar mesmo, devagar a ponto de competir com os 70% que saem para caminhar com os seus andadores. Considero até um ato cordial esse nosso, não queremos sair por aí exibindo nossa juventude perto desta comunidade querida dos velhinhos dos andadores. E quando alguém nos passa correndo ligeiramente mais rápido que nós, esteja certo, esta pessoa vai parar logo em seguida. Porque este também é o nosso método de corrida: corre um pouquinho, anda um pouquinho.
Depois de um tempo, você já se sente parte desta comunidade dos que odeiam correr, mas correm mesmo assim. Nos cruzamos com breves sorrisos de reconhecimento, acenos delicados de cabeça, olhares de compaixão mútua: “eu te entendo, também não queria estar aqui, esta tua camiseta é da Olimpíada de 92?”. Olho com carinho a moça que me ultrapassou, mas voltou a caminhar 100 metros adiante. Sei o que passa na cabeça dela: “vou até a esquina andando e aí volto correndo porque é descida”.
Eu também faço isso, amiga. Na descida, todo santo ajuda.
Adorei o texto, super me identifiquei com ele. Detesto correr, praticar esporte em geral desde meus tempos de educação física na escola. Nunca serei da turma da TCC e sim da TCF – tribo da caminhada forçada já que me nego a correr!
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Ahahahahaha! Isso! Esportes em geral, destes que fazem suar e ficar ofegante, detesto. Caminhar eu gosto, amo. Posso caminhar por horas, quilometros, e nem noto. Mas correr? Gente… que coisa horrível! 😂😂😂
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Me representa.
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