
Quando foi que você fez algo pela última vez?
Tão preocupados estamos em fazer alguma coisa pela primeira vez, como insistem os inomináveis coaches, que às vezes não nos lembramos do que perdemos. De que algo ficou pelo caminho enquanto seguimos em frente acumulando novidades.
A última vez em que brinquei de balanço num parque, que fiz uma prova de matemática ou esperei os colegas na saída da escola para conferir o gabarito. A última aula de geografia, a última vez que cruzei a ponte Rio-Niterói de carona com amigos da faculdade, a última vez que fui ao bar da esquina da casa dos meus pais ouvir chorinho. Tudo isso me escapa, embolado num nevoeiro difuso de memórias. Posso lembrar de balanços, aulas de geografia ou provas de matemática, das muitas caronas, das noites no bar. Mas não daquela última.
Assim seria para o grupo de cinco amigos sentados ao redor de uma mesa na taverna grega de Chania em julho de 2025. Cinco amigos por volta dos 20 anos. Três moças, dois rapazes. Relaxados, dividiam pratos de comida, bebiam cerveja, conversavam tranquilamente. Como se aquele momento fosse eterno, como se a atenção pudesse ser dispensada porque estariam ali para sempre naquela taberna, tomando cerveja, ouvindo música, conversando. Sem nenhuma angústia de querer encapsular o momento, em preservá-lo como uma das muitas cenas gregas gravadas em pedras e exibidas na Acrópole.
Ana, 22 anos. A mais velha do grupo, com uma superioridade relaxada, como quem sabe do seu lugar no mundo, como quem tem um plano. De fato, Ana tem um plano. Em dois anos terminará a graduação em Engenharia e planeja ir embora da Grécia. Londres, ela imagina. De preferência para trabalhar em alguma firma de engenharia ou arquitetura por lá. Mas pode ser qualquer outra coisa, qualquer outro trabalho. O importante é ir embora de Atenas, colocar o máximo de distância possível entre ela e o calor úmido deste sol grego inclemente. Ana tem cabelos e olhos negros, um rosto fino, alongado e enrola cigarro atrás de cigarro com calma e precisão.
Maria, 20 anos. Para este verão, resolveu trançar os cabelos longos e castanhos, formando finas linhas coladas na cabeça da testa até a nuca. Estuda Belas Artes e é, de longe, a mais sonhadora, a mais inocente do grupo. De riso fácil, é a primeira a cantar as músicas tradicionais gregas entoadas pelos músicos da taverna. Maria não tem um plano como Ana, talvez porque tenha confiança inabalável na vida, nas muitas possibilidades que certamente surgirão, bastando que ela mantenha os olhos e a mente abertos. Como quase todos os artistas, Maria acredita em coincidências e acasos, se apaixona facilmente, perdoa ainda mais. Neste julho de 2025, Maria tem certeza de que tudo vai dar certo. Vai se apaixonar, vai trabalhar em alguma galeria, talvez até tenha a sua própria.
Nikos, 20 anos. Sabia que era gay desde o princípio da adolescência, mas foi só mesmo quando entrou na faculdade (Nikos estuda com Maria) que se sentiu mais à vontade consigo mesmo e com o mundo. Ainda vacila um pouco quando está em um ambiente com muita gente desconhecida, mas entre amigos – especialmente estes amigos – se sente confortável, feliz. Pode ser ele mesmo, com suas camisetas tie-dye, seus jeans rasgados, seus chinelos de couro, o cabelo meio desgrenhado e precisando desesperadamente de um corte. Não tem ideia do que quer da vida, ou do que fará quando se formar, exceto de que em hipótese alguma trabalhará em um banco como seu pai.
Andreas, 21 anos e Lara, 20. Formam o único casal do grupo. É claro que todos sabem que Maria sempre foi meio apaixonada por Nikos e, de certa forma, eles também formam um casal, ainda mais estudando na mesma faculdade. Mas é tudo, obviamente, platônico. Já Andreas e Lara não tem nada de platônico. Estão oficialmente juntos há um ano e meio, mas já ensaiavam esse relacionamento desde os 15 anos, quando estudavam todos juntos, os cinco no mesmo liceu. Andreas cursa Administração; Lara, Direito. Andreas sendo o mais ambicioso e Lara tendo um temperamento modesto, reservado, se levam mais a sério que os outros três. Têm uma vida minimamente planejada pela frente: Andreas vai trabalhar no negócio do pai (uma pequena rede de hotéis 3 estrelas, que ele sonha em elevar para 5) e Lara vai trabalhar em algum escritório de advocacia. Vão se casar e, assim que puderem comprar a primeira casa, terão três filhos.
Gostaria de contar aqui que naquele dia, naquele julho escaldante que acumulava uma onda de calor extremo atrás da outra, naquela taverna de turistas com comida boa, cerveja gelada e música tradicional, nada disso importava. Que aqueles cinco amigos estavam ali inteiramente presentes, apenas desfrutando daquele momento especial entre eles. Mas não é verdade, como quase nunca isso é verdade. Enquanto bebiam cerveja e cantavam sorrindo, cada um pensava somente no futuro. No que iriam fazer quando o verão acabasse, a faculdade acabasse, o futuro chegasse. Enquanto Ana enrolava e distribuía cigarros, enquanto Nikos enchia os copos de cerveja, enquanto Maria cantava baixinho, o silêncio ia pouco a pouco preenchendo a mesa, os olhares iam ficando distantes, os sorrisos mais raros. Eles já não estavam ali, estavam em seus próprios sonhos.
Foi por isso que nenhum deles se deu conta de que aquela seria a última viagem que fariam juntos, que aquele almoço seria o último dos cinco. Já tinham vindo para Creta muitas vezes, em muitos verões. Desde os tempos do liceu, Ana os convidava para passar alguns dias, às vezes semanas, na casa de sua avó. Houve um ano em que vieram até no inverno. Era uma viagem barata e segura para adolescentes de poucos recursos, que aqui podiam desfrutar de uma liberdade que já não encontravam em Atenas. Virou um hábito, uma tradição. Por isso mesmo era difícil para eles imaginar que um dia isso terminaria. Que um dia seria a última vez que sentariam juntos naquela taverna.
Mas a verdade é que aquela seria, de fato, a última vez.
No verão seguinte, todos estariam focados nos estudos, no trabalho, nos seus novos relacionamentos. Não conseguiriam encontrar uma data que servisse para todos e, francamente, também já não estavam com tanta vontade assim de voltar à Creta. Queriam que a vida seguisse – fazer algo novo pela primeira vez. Poderiam voltar depois, sempre poderiam voltar depois. Aos poucos, os encontros em Atenas também foram ficando cada vez mais raros.
A vida, finalmente, seguiu. Eles nunca mais voltariam.
Maria nunca superou seu amor platônico por Nikos, ainda que tenha se apaixonado várias vezes. Também nunca chegou a trabalhar numa galeria de arte, ou ter a sua própria. Uma de suas muitas paixões, um homem bem mais velho acostumado a fazer grandes promessas, a apresentou a algumas drogas mais pesadas que nunca mais a abandonaram. Morreu dias antes de completar 30 anos, em um acidente de carro numas das estradas sinuosas da Creta que ela tanto amava, onde tinha vindo tentar se desintoxicar por uma última vez.
Nikos tentou tudo que pôde para seguir trabalhando com arte. Tentou até as galerias para turistas em Plaka. Mas o mundo mudou rápido demais e, com a morte de Maria, não reconhecia mais a arte que amava em parte alguma e seguiu de depressão em depressão, em uma vida cada vez mais instável, cada vez mais distante do jovem alegre e tímido dos verões adolescentes. Hoje é gerente de um bar chique para turistas, mas vive uma vida reservada com a mãe viúva.
Andreas e Lara se casaram e compraram um apartamento, tudo como previsto. Mas Andreas se tornou mais e mais controlador conforme os anos passavam, o que piorou muito com a chegada do primeiro bebê, quando já não escondia as muitas amantes que colecionava. Lara teve que deixar de trabalhar e foi desaparecendo aos poucos, até finalmente fugir com o filho de 3 anos para um abrigo de mulheres vítimas de violência doméstica. Mudou de nome e cidade e nunca mais se soube dela.
Ana se mudou para Londres para encontrar uma vida muito menos glamourosa do que imaginava. Trabalhou em bares e restaurantes até finalmente conseguir um emprego numa empresa de engenharia, onde trabalha horas demais para um salário que mal cobre o aluguel de uma kitchenette no East End. Completa a renda com o aluguel da casa de Chania que herdou da avó e que, hoje, é um Airbnb.
A taverna grega daquele último encontro, daquela última viagem, ainda existe. Os ecos das risadas leves dos cinco, da música cantada baixo, dos cigarros enrolados e fumados, ainda ressoam pelas paredes. Como tudo na Grécia, são as paredes e as pedras que ainda se lembram. São as pedras que sabem que sempre haverá a última vez. São elas as responsáveis por guardar a memória do que todos nós já esquecemos.